A escola na infância

imagesHoje fiquei pensando no significado da escola na nossa vida. Tive uma reunião no colégio da minha filha de 2 anos, onde foi apresentado, entre outras coisas, o que as crianças fazem durante o período que estão em aula. Primeiro, elas sentam em roda e cantam ou conversam sobre o fim de semana, depois trabalham com pintura, desenho, massa de modelar, ouvem histórias e identificam o que é grande ou pequeno, o que é muito ou pouco, as cores, os números, as partes do corpo. Depois tomam o lanche e em seguida tiram uma soneca de descanso. Quando acordam vão para o tanque de areia, o playground, a piscina de bolinha…

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Imaginei que talvez essa seja a melhor fase da escola e infelizmente, talvez a que menos lembramos. Nessa fase as crianças não tem compromissos, nem tarefas, nem pressões de provas, vestibular, nem de faltas. O dever se resume a brincar.

Li um artigo do sociólogo Peter Ludwig Berger onde ele escreve: ” A biografia do indivíduo, desde o nascimento, é a história de suas relações com outras pessoas“. No ato de brincar a criança aprende a conviver em sociedade. São as primeiras regras colocadas fora do ambiente de casa. Emprestar um brinquedo, respeitar a vontade do outro em não emprestar, compartilhar o lanche, guardar a bagunça, fazer carinho no amigo, são os primeiros passos para a criança se encaixar numa sociedade com valores formados. Para Berger, ” o processo por meio do qual o indivíduo aprende a ser um membro da sociedade é designado pelo nome de socialização“. Então nada mais justo dizer que a escola para os pequeninos é a forma de praticar a socialização.

Já ouvi muito que era melhor esperar minha filha ficar mais velha para ir à escola, já que não é uma necessidade. Só que em casa, a criança só recebe as orientações dos pais e família, que muitas vezes são recheadas de gestos complacentes que são carregados de amor, de culpa, de angústias e por isso, na maioria das vezes não são imparciais. E muito pior, quando o filho é único e só tem contato com adultos.

Espero que o argumento da socialização possa ser forte o suficiente para os pais que estão em dúvida em colocar seus filhos na escola por volta dos 2 anos. É saudável tanto para a criança quanto para o adulto porque acredito que o filho deve explorar o mundo ao máximo, mesmo nos primeiros anos de vida, que serão os iniciais vivenciados na escola.

E para os pais que ficam com seus corações apertados é a oportunidade de mostrar aos filhos pouco a pouco que o mundo não se resume à casa deles e que com o passar do tempo é preciso encorajá-los a descobrir novas possibilidades que só irão torná-los mais fortes.

Fonte: Peter L. Berger e Brigitte Berger, “Socialização: como ser um membro da sociedade”

Sbre Eanne

Deus Branco (Fehér isten)

Coloque em um liquidificador húngaro O Planeta dos Macacos, Espártaco e uma pitada de Marley e Eu.

O resultado é um surpreendente filme que é de certa forma, uma crônica dos tempos atuais.

Que eu me lembre, nunca havia visto um filme húngaro. Bom li o ótimo livro Budapeste do Chico Buarque e vi a sua excelente adaptação feita para o cinema, onde muitas das cenas são rodadas no país europeu. Mas definitivamente está longe de ser uma obra húngara de fato.

A Hungria é um país lindíssimo. Estive em Budapest duas vezes e na última estive em um museu que está entre os que mais me impressionaram, a casa do terror, assim batizada em alusão aos dois regimes ditatoriais que assolaram a Hungria no século passado, primeiro o nazismo e depois o estalinismo, na sua variante húngara. As salas foram criadas de forma a passar para o visitante o clima opressor e pesado dos regimes. A iluminação escura, a música de fundo realmente traz desconforto ao visitante. Há um vídeo que nunca me esquecerei, onde uma velhinha dá um depoimento dizendo que ela teve cinco ou seis filhos – não lembro exatamente – e que os nazistas os mataram todos, um a um, sobrando ela e o marido. Como alguém pode sobreviver depois disso é um mistério.

Atualmente, a Hungria é um dos países europeus que vêm registrando nos últimos anos um aumento crescente da extrema direita. Em uma reportagem recente da Deutsche Welle, é descrito que o partido extremista Jobbik está apenas três pontos atrás, segundo as recentes pesquisas, do partido Fidesz que é o partido que exerce o poder. Notar que o Fidesz já é um partido bem conservador. Nacionalismo, preconceito, baixo crescimento econômico, tudo isso é um caldo perfeito para movimentos de massa de extrema direita, mas é isto é tema para outro post.

Mas o que tudo isso tem a ver com o filme? O diretor do filme, Kornél Mundruczó, nasceu em 1975. Em uma recente entrevista, Mundruczó afirmou que filme reflete sobre a relação entre as maiorias, como estas criam as minorias e “… nós criamos nossos monstros, e nós os rotulamos como monstros,  cães de ruas, minorias ou o que você tiver…” e abre o filme citando uma frase do poeta austro-húngaro Rainer Maria Rilke: “tudo o que é terrível precisa do nosso amor”.

Basta lembrar que na Hungria há alguns anos atrás houve uma série de assassinatos a sangue frio praticados por extremistas de direita em pessoas da minoria cigana Roma.

Uma pequena sinopse do filme: uma adolescente Zsófia , filha de pais divorciados, de repente precisa passar uma temporada na casa do pai em razão de uma viagem de trabalho da mãe. O detalhe é que a filhota vem acompanhada do seu cão Hagen. Mas o cão não é aceito pelo pai, e pelos moradores do prédio onde ele vive. Há uma frase para mim emblemática do filme que é quando o síndico do pai vai reclamar sobre o cão e diz “É um cão de rua, de raça misturada, nenhuma raça húngara”. O cão é expulso da casa, solto nas ruas de Budapeste, é preso pela carrocinha, sequestrado por um qualquer e vendido a um amestrador, onde é barbaramente torturado, que instiga violência nele para ser um grande cão de briga. O Marley amoroso do começo do filme transforma-se numa besta sanguinária. Hagen se revolta, torna-se um líder entre os seus pares e incita uma revolução nas ruas de Budapeste procurando seus algozes. Ao se deparar novamente com Zsófia, a canidade – se nós temos humanidade por que os cães não teriam uma canidade? – se manifesta novamente, demonstrando afeto e respeito com alguém que sempre lhe deu atenção e amor.

Um grande achado, um grande filme, merecidamente ganhou o prêmio um certo Regard no festival de Cannes em 2014. Vale a pena ver.

Ficha Técnica

Título: White God (Fehér Isten)

Diretor: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kornél Mundruczó

Elenco: Zsófia Psotta, Sándor Zsoster, Lili Horváth, Gergeli Bánki

Produção: Proton Cinema, Pola Pandora Filmproduktions

Distribuição: Magnolia Pictures

Ano: 2014

País: Hungria, Alemanha

Trailer:

sobre parma

Crianças perdidas

Agora que sou mãe, me sinto mais sensível em relação as notícias de maus tratos e abusos cometidos contra as crianças. Não que antes tinha algum tipo de compreensão ao fato de um adulto se aproveitar de sua capacidade física para ferir (e aí pode se entender de todas as formas) uma criança, mas agora tenho uma melhor percepção da fragilidade e ingenuidade desses pequenos indivíduos. Os abusos são desde sexuais até o abandono e humilhação. Outro dia uma professora do meu curso fez um relato, que uma mãe foi até a escola onde seu filho de 9 anos estudava para pedir que o conselho tutelar cuidasse da criança porque ela não estava apta para tal. Ou seja, o desejo da mãe era se “livrar” de um “problema” que ela não dava conta de resolver, assim como se faz com um aparelho eletrônico que não funciona mais e não tem conserto. Também assisti a um vídeo numa rede social, que uma suposta mãe espancava o filho com um cinto pela rua e o empurrava-o para dentro de casa como se fosse um animal (os animais não mereceriam isso). E hoje li a notícia no blog do Jamil Chade sobre estupros cometidos

Foto: Internet
Foto: Internet

pelas tropas internacionais francesas alocadas na África Central (reportagem no The Guardian), que abusam de crianças que deveriam ser defendidas e protegidas por estes mesmos soldados. É uma vergonha para a humanidade. Mas o fato é que diante tamanha indignação, tristeza e pesar por saber que tantas crianças sofrem no mundo ainda sei que não posso mudar isso. O que posso e devo fazer é me comprometer na educação e no cuidado, proteger a integridade física e moral e contribuir na construção do intelecto da minha filha. É ser responsável, não só no sentido de ter que abrigar e dar comida, mas também em transformar uma criança num adulto que seja capaz de respeitar e compreender o outro. Minha obrigação como mãe e cidadã é refletir sobre o meu discurso e atitudes diante minha filha e não desistir, mas reconsiderar e avaliar o caminho a ser percorrido. É proteger e não se valer da violência como forma de punição ou extravasamento da falta de paciência ou compreensão. Só posso mudar o que está ao meu alcance, mas posso fazer com afinco e dedicação. Se cada um de nós nos responsabilizasse em cuidar de nossas crianças, o mundo estaria bem melhor.

Sbre Eanne