Memórias

O mundo é um lugar muito grande comparado com a nossa existência. Existem lugares que nunca conheceremos, línguas que nunca ouviremos, sabores que nunca provaremos. A maioria das pessoas não liga para isso e passam praticamente toda a sua vida próximo ao lugar onde nasceram ou então próximo ao lugar onde se estabeleceram. Não há nenhum mal nisso, é uma opção de vida e as tecnologias atuais permitem ir virtualmente aonde se queira.

E também a boa literatura nos convida à conhecer lugares remotos. Um ótimo exemplo é o romance Mongólia do brasileiro Bernardo Carvalho.

Mas quem curte – verdadeiramente  – viajar, a sensação do desconhecido é fantástica, e se for para algum lugar ou país distante, a excitação é maior ainda, pois nunca se sabe se vai ser possível lá voltar até o final da vida, e, por esta razão as sensações serão únicas.

Acho provável que nunca mais voltarei a Aleppo e Damasco na Síria e talvez minha filha não tenha a oportunidade de visitar os mesmos lugares que eu.

Por exemplo, no sítio arqueológico de Palmira, sempre poderei dizer que “Eu estive lá, ninguém me contou, eu mesmo vi” . A humanidade constrói e destrói na mesma proporção.

Acabamos de voltar de Seychelles, uma ilha no oceano índico pertencente ao continente africano.

O que era na semana passada realidade, agora são memórias.

Desejo muito poder voltar.

Enquanto isso não acontece, fecho os olhos e sinto tudo aquilo que vi, tateei, cheirei e saboreei.seychelles-1

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Por que os brasileiros não ganham muitas medalhas?

Sei que agora é tarde para fazer este comentário porque o Brasil foi escolhido para sediar as Olimpíadas em 2009, ou seja, 7 anos atrás, mas assistindo aos jogos me dei conta que o Governo, de quem é a responsabilidade de organizar o evento, só se preocupou com a parte financeira das Olimpíadas.

Na verdade, o planejamento com os atletas se mostra ineficiente, apesar de ter tido algum esforço com a construção de alguns centros de treinamento, como o Arena Caixa, localizada em São Bernardo do Campo (SP), e que foi inaugurada em março de 2014; com os programas de apoio financeiro, como o bolsa-atleta, que oferece ao esportista olímpico uma ajuda financeira no valor de R$ 3.100,00; e o Plano Brasil Medalhas, que investiu 1 bilhão adicional aos esportes olímpicos e paraolímpicos para o Rio 2016. Esse valor foi dividido entre a contratação de técnicos e equipes multidisciplinares, compra de equipamentos e materiais, viagens para treinamentos e competições, construções, reformas e equipagem de centros de treinamento de várias modalidades e complexos esportivos e ações voltadas para o apoio dos atletas como o Bolsa Pódio. Esse último, de acordo com a página Brasil 2016, assegura ao competidor uma bolsa que varia entre R$ 5.000,00 a R$ 15.000,00 dependendo das classificações em Mundiais e competições internacionais.

A maioria dos atletas possuem o benefício que tem o intuito de oferecer ao atleta apoio financeiro em troca de dedicação exclusiva ao esporte e resultados expressivos nas competições de alta performance, uma vez que a manutenção da bolsa é analisada pelos resultados obtidos.

Um dos atletas beneficiados pela Bolsa Pódio é a medalhista de ouro Rafaela Silva, os ginastas Diego e Daniele Hipólito, a judoca Sarah Menezes, o nadador Leonardo de Deus, entre outros.

No entanto, somente o incentivo financeiro não é suficiente para fomentar e transformar o esporte brasileiro. Nos jogos das Olimpíadas Rio 2016 vale algumas observações.

Os atletas não tem uma consistência nos Jogos Olímpicos. Um exemplo é a judoca Sarah Menezes que foi campeã com medalha de ouro em Londres 2012 e agora “em casa” não conseguiu passar pela primeira fase.

O incentivo oferecido pelo Governo não foi capaz de beneficiar e revelar novos nomes, já que as bolsas eram concedidas para atletas já consagrados. Muitos esportes com tradições de conseguir medalhas para o Brasil como o judô e a natação, não conseguiram um bom desempenho no próprio país.

Na minha opinião, os atletas brasileiros precisam trabalhar muito o lado psicológico. Eles são vulneráveis as pressões, que são normais num ambiente competitivo. É só prestar atenção nos discursos e choros “desconsolados”. Até a Rafaela Silva no final da luta, quando já tinha ganho o ouro, não conteve as lágrimas que pareciam de quem havia percorrido um calvário para chegar ali. Prova que nosso esporte precisa de uma atenção especial.

Um exemplo a ser seguido é a Austrália. Uma série de medidas, como recursos abundantes, instrumentos bem aplicados e vontade política fizeram o país dos cangurus deslancharem e de 5 medalhas de Bronze em Montreal (1976) conseguiram 58 nos Jogos de Sydney (2000), país sede. Foram mais de 20 anos para obter resultados, mas a Austrália é um modelo para as nações que querem investir com sucesso em seus atletas. No próximo post vou falar um pouco sobre o que foi realizado nesse país da Oceania.

Sbre Eanne

 

Série da Netflix: Bloodline

Quando você pensa que já assistiu as melhores séries da TV aí vem uma que te deixa aficionado até o último episódio. Bloodline é assim. A história gira em torno de um drama familiar: o filho mais velho problemático decide voltar para casa depois de muito tempo ausente. Esse retorno traz a tona segredos que abalam a família aparentemente exemplar dos Rayburn. O interessante é observar como agem as pessoas que sofrem algum tipo de pressão, tanto que o “slogan” da série “não somos pessoas ruins, mas fizemos algo terrível” retrata a angústia dos personagens. Os atores são tão bons que resolvi explorar um pouco suas trajetórias.

Robert Rayburn ( Sam Shepard) – veterano do cinema, atuou em filmes como Os eleitos em 1983, Paris-Texas, 1984, Diário de uma paixão,2004, O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, 2007, Álbum de família, 2013, entre outros.

Sissy Spacek (Sally Rayburn) – atriz americana que já ganhou o Oscar com o filme “O destino mudou sua vida”, 1980 e protagonizou a Carrie no filme “Carrie, a estranha” na versão de 1976 de Stephen King e mais recentemente (2011) Histórias Cruzadas.

Kyle Chandler (John Rayburn) – ator americano que participou de várias séries, como Friday Night Lights e alguns filmes: A hora mais escura (2012) e O lobo de Wall street (2013).

Ben Mendelsohn (Danny Rayburn) – australiano atuou em filmes do seu país como: Austrália (2008), Reino animal (2010) e o Lugar onde tudo termina (2012).

Linda Cardellini (Meg Rayburn) – atriz americana mais conhecida pelo papel de  Velma Dinkley no filme Scooby-Doo (2010) e também participou da série Mad Men (2013).

Norbert Leo Butz (Kevin Rayburn) – é um ator mais conhecido por suas atuações no teatro da Broadway e algumas participações nas séries Law and Order: Criminal Intent (2009) e CSI: Crime Scene Investigation (2010).

Sbre Eanne

 

 

 

Ratos

A lembrança não é minha, mas do Marcelo Lima no seu excelente blog.

Só podia ser de autoria do Chico Buarque.

Não há música e letra que melhor represente o atual governo interino brasileiro.

Realmente, como que composta sob medida.

Uma boa e interessante análise sobre a música pode ser vista aqui. E ela pode ser ouvida aqui.

ODE AOS RATOS – Chico Buarque

Rato de rua
Irrequieta criatura
Tribo em frenética proliferação
Lúbrico, libidinoso transeunte
Boca de estômago
Atrás do seu quinhão

Vão aos magotes
A dar com um pau
Levando o terror
Do parking ao living
Do shopping center ao léu
Do cano de esgoto
Pro topo do arranha-céu

niquel-nausea
Rato de rua
Aborígene do lodo
Fuça gelada
Couraça de sabão
Quase risonho
Profanador de tumba
Sobrevivente
À chacina e à lei do cão

rato angeli
Saqueador da metrópole
Tenaz roedor
De toda esperança
Estuporador da ilusão
Ó meu semelhante
Filho de Deus, meu irmão

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Rato
Rato que rói a roupa
Que rói a rapa do rei do morro
Que rói a roda do carro
Que rói o carro, que rói o ferro
Que rói o barro, rói o morro
Rato que rói o rato
Ra-rato, ra-rato
Roto que ri do roto
Que rói o farrapo
Do esfarra-rapado
Que mete a ripa, arranca rabo
Rato ruim
Rato que rói a rosa
Rói o riso da moça
E ruma rua arriba
Em sua rota de rato

ratos brasil

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A Inglaterra triunfa!

Lendo hoje a estarrecedora e triste notícia no site da BBC sobre a onda de xenofobia na Inglaterra pós Brexit, me veio à lembrança a genial série em quadrinhos – ou sendo mais sofisticado, romance gráfico – V de Vingança, publicada originalmente,  na versão integral, na Inglaterra em 1988. Comprei esta história no começo dos anos 90, em uma banca perto da USP, e lembro que a li várias vezes e o impacto que ela me causou foi – e continua sendo – enorme.

Escrita por Alan Moore, um escritor inglês muito próximo ao anarquismo e da contra cultura, V de Vingança é uma história em um futuro distópico na qual a Inglaterra, saída de uma guerra brutal, é governada por um tirano brutal, notadamente fascista, onde a população diariamente ouve um programa de rádio intitulado “Voice of London”. Não há contraponto, a Voice of London é a única fonte de notícias admitida, onde o locutor brada:

“Good Morning London, this is the voice of fate” (Bom dia Londres, esta é a voz do destino)

“England prevails!” (A Inglaterra triunfa!)

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A história foi muito bem adaptada para o cinema no filme homônimo de 2006, com a direção de James McTiegue, com presenças de Hugo Weaving, Natalie Portman e o grande Stephen Rea.

Se você não viu veja, e se puder leia a história original, é genial.

A saída do Reino Unido é uma vitória da xenofobia, mas não só dela, como bem observou a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, brasileira professora em Oxford, em artigo reproduzido no Tijolaço.

Parece que a volta do fascismo, que tanto assombrou a Europa no período entre guerras, está ressurgindo com força, em vários países distintos. Uma era de anti-iluminismo e ódio, onde as diferenças são exaltadas. E não é só na Europa, nos EUA Donald Trump tem grandes chances de vencer a eleição em Novembro.

E por aqui o presidente interino usurpador, cercado e sustentado por uma escória política e uma mídia abjeta. O governo deposto era sem dúvida medíocre e incompetente, mas eleito, dentro das regras da democracia burguesa.

As elites agressivas, xenófobas e misóginas de São Paulo nunca estiveram tão bem representadas. Triste e desolador.

Voltando ao V de Vingança, há uma passagem memorável, em que o ativista V confronta a justiça, representada por uma estátua, dizendo “você não é mais a minha justiça, é a dele. Recebeu outro em sua cama”

V de Vingança

Tempos bicudos estes.

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La Tierra y la Sombra

Há uma cena, quase no final do filme, em que dois protagonistas sentam-se em um banco à beira de uma árvore enorme, e o homem comenta com a mulher, “ se lembra quando caminhávamos no meio dos laranjais e outras árvores…” e ela retruca “isto faz muito tempo”. Na imagem, além do banco e da árvore centenária, canaviais por todos os lados.

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Zona canavieira no interior da Colômbia. Um homem volta à sua casa após muitos anos, reencontrando sua mulher, filho, a nora e um neto que nunca havia visto. A casa é muito simples. O filho está muito doente, sofre de insuficiência respiratória causada pelas cinzas proveniente das queimadas. O sustento da casa é feita pela nora e pela mulher, cortadeiras de cana, trabalho miserável, insalubre e cansativo.

Modernidade é por vezes relativa; na família deste filme, ela não trouxe internet, iphones, melhor acesso à educação ou saúde. As relações  trabalhistas retratadas remontam ao início da revolução industrial. A nostalgia dos personagens mais velhos é um fato: no passado as coisas eram melhores, maior dignidade havia em viver.

O filme é quase documental, não há muitos diálogos. A fotografia é melancólica. A miséria e a exploração são elementos constantes, entremeados com pitadas de amor e decência humana, pois como compôs Tom Jobim, a tristeza não tem fim, a felicidade sim. A ausência de religião na parca mobília da casa e nos diálogos sugere que o lugar é tão miserável que até deus esqueceu-se de oferecer ajuda.

 

Há muitas cenas tocantes, como na singela cena do avô brincando de pipa com o neto, o único presente do seu dia de aniversário. Ou na crueza do capataz, dispensando cortadores por “não renderem”, virando-lhes as costas.

Pobre América Latina. Citando Eduardo Galeano, a pobreza antes era considerada obra de injustiça. O mundo moderno considera a pobreza incapacidade.

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Belo filme, recomendadíssimo. Premiado com a Caméra d´or no festival de Cannes de 2015.

FICHA TÉCNICA

Data de lançamento: 17 de dezembro de 2015 (Brasil)

Direção e Roteiro: César Augusto Acevedo

Fotografia: Mateo Guzmán

País:      Colombia

Ano       2015

Gênero                Drama

Duração               97 minutos

Idioma(s)            Espanhol

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Voltando….

LAERTE-04-05-10

Escrever é uma arte sinuosa. Você senta, há uma ideia e precisa desenvolvê-la. O início é um tanto difuso, as palavras não se encaixam, a tecla delete é pressionada inúmeras vezes, você olha para a janela buscando inspiração, quem sabe o espírito de Machado de Assis vem e o post sai em cinco minutos. As frases são finalmente escritas, mas é preciso revisá-las; e o texto completo precisa ser coeso, sem pontas soltas, de modo que a ideia tenha sido – pelo menos razoavelmente – transmitida. E, se alguma reflexão foi causada no eventual leitor, o objetivo é bem sucedido e temos um post decente.

Um dos grandes incentivos em manter um blog no ar é exatamente a arte de exercitar a escrita. Não sendo um blog profissional, há talvez aquela falta de disciplina que temos que ter em nossos empregos: escrevemos quando o tempo permite, e a inspiração tem que estar presente, para que o post seja bem desenvolvido e o resultado aceitável.

A escolha do tema é importante: por vezes, o assunto sobre o qual gostaríamos de escrever não é relevante para outras pessoas; um livro ou filme que muito me influenciou, me tocou, pode nada significar para elas.

Ou não. Escrevemos somente sobre os assuntos de que gostamos, e aí o leitor com o mesmo interesse ou afinidade naturalmente vem, volta e meia interagindo, enriquecendo a discussão e o blog.

Escrever é provocar. E se nem sempre a provocação vem acompanhada de bom conteúdo, pelo menos não passa batido, causa uma reação que pode ser até um breve menear da cabeça, ou então um belo xingamento (“como esse cara escreve merda!”), ou, aleluia, a consagração do missivista (“é exatamente isso que eu penso!”). A passividade do leitor é o pior inimigo do escritor.

Manter um blog no ar não é fácil. Mas aqui estamos, firmes, não muito disciplinados, mas motivados, com tesão de seguir em frente.

Longa vida ao Fora da Zona Verde.

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