Duas ótimas séries policiais no Netflix

collageboca_0EM primeiro lugar, vamos comentar: com tanta série excelente por aí, quem ainda tem saco para assistir novelas?

É incrível que a cada dia que passa a programação aberta das tevês se torna mais irrelevante e obsoleta. Nada mais arcaico do que o jornal das 8, a novela das 9…isso sem falar no conteúdo, cada vez mais imbecilizante.

Com estes serviços de streaming, como a Netflix, você assiste quando, onde e como quiser. Se quiser assistir no seu smartphone na sua hora do almoço, você pode.

O Brasil será um país melhor quando entrarmos em um consultório médico e a TV não estiver mais sintonizada na TV Globo. Mas isso é outra história.

Vamos lá.

Acabamos de assistir duas excelentes séries policiais disponíveis na Netflix: The Killing e The Fall.

A primeira é produzida pela americana AMC, baseada em uma série original dinamarquesa Forbrydelsen, disponível também no Netflix . Ambientada em Seattle, terra natal do Nirvana, Pearl Jam e de todo o movimento grunge, cidade com um clima desgraçado em que a maior parte dos dias do ano chove, além de fazer um baita frio. No início da série uma adolescente é assassinada, e a investigação cabe a inspetora Sarah Linden (Mireille Enos) e ao seu parceiro Stephen Holder (Joel Kinnaman). Há uma campanha política em curso, que de alguma está relacionada com a morte da garota.

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Um dos grandes méritos da série é a performance excepcional da dupla policial. A atuação da atriz Mireille Enos lembra a de Frances McDormand em Fargo: Sarah Linden não é bonita, nem é uma super policial infalível; ela erra, é cheio de problemas pessoais, não consegue conviver com o filho, enfim, ela é uma pessoa normal, com todas as falhas e qualidades. Joel Kinnaman (que trabalhou na última temporada de House of Cards), seu parceiro, está muito bem também, no papel de um policial adicto que luta com os seus pesadelos. Os dois juntos se completam.

Cada capítulo da série corresponde a um dia de investigação e é impossível assistir só um de cada vez. Ponto aos roteiristas.

Assistimos às duas primeiras temporadas. São quatro no total, e a crítica para as duas últimas são positivas também. Vamos conferir.

Já The Fall se passa em Belfast, Irlanda do Norte, e é uma série inglesa que foi exibida originalmente por um canal irlandês junto com a BBC. Sua protagonista é Gillian Anderson, velha conhecida por seu papel na mítica série X-Files. Gillian é Stella Gibson, experiente policial baseada em Londres que é chamada para Belfast para chefiar uma investigação sobre um serial killer que está matando mulheres jovens com requintes de crueldade.

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Como uma típica série europeia, o seu desenvolvimento é mais lento e linear do que as séries americanas. Há poucas reviravoltas no roteiro, mas a tensão é aumentada continuamente, e o embate psicológico entre os personagens, mas especificamente entre Stella e o suspeito, é sensacional. Os diálogos são muito bem construídos – novamente uma característica dos ingleses.

Stella Gibson não é uma policial comum. Sofisticada, bem preparada e com uma cultura muito acima da média, ela é uma feminista dentro e fora do seu meio, majoritariamente masculino. Ela sabe, por conhecimento profissional, que a perversidade dos homens não tem limites, e que a sociedade perdoa muito mais os desvios e as mais diversas sexopatias quando o homem é o protagonista. O serial killer, cujo nome do personagem vou aqui omitir, poderia ser definido em uma frase de Nelson Rodrigues: “tarado é toda pessoa normal pega em flagrante”.  Claro que é uma piada, o cara é um doente profundo, mas ao mesmo um tempo um cara normal, casado, cuja filha o adora. Mas a série acerta também no seu (serial killer) histórico psicológico, pois afinal de contas de onde vem o mal? Por que tanta gente é tão maldosa e sádica? Não se trata de perdoá-lo, mas entendê-lo.  Outro ponto positivo para The Fall.

É uma série relativamente curta: são 17 capítulos divididos em três temporadas e a última, com seis episódios, é magistral. A violência, quando irrompe, é brutal e seca.

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Não à toa, The Fall recebeu inúmeras críticas extremamente positivas e o público que a assistiu também aprovou: o site Rotten Tomatoes dá 100% de aprovação para as duas primeiras temporadas. O Metacritic também o avalia de forma muito favorável.

Realmente uma das melhores séries policiais de todos os tempos.

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Uma crítica a Narcos

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Em 2006, o grande Clint Eastwood lançou dois filmes antológicos: Flags of Our Fathers (Conquista da Honra) e Letters from Iwo Jima (Cartas de Iwo Jima), ambos como tema Iwo Jima, uma das grandes batalhas da segunda grande guerra, ocorrida no início de 1945 no Pacífico. O primeiro filme é falado em inglês e conta a história do ponto de vista americano; o segundo é falado em japonês e conta a mesma história, mas os protagonistas e narradores são japoneses. Clint é um ferrenho conservador, mas sem dúvida um dos maiores diretores de cinema vivos (OK, não levo em conta a bobagem de Sniper Americano de 2014), que neste dueto exercitou com maestria a arte de contar uma história através de duas visões diferentes e por vezes antagônicas.

Quando o roteirista Chris Bancato e o diretor José Padilha fecharam o formato de Narcos foi decidido de que lado a história deveria ser contada.

Narcos é narrada em primeira pessoa através de Steve Murphy, agente da DEA (agência americana anti drogas) originalmente locado em Miami e que é transferido para a Colômbia para atuar na repressão do então crescente tráfico de cocaína para os Estados Unidos, no começo dos anos 90. Steve é fiel, incorruptível, altruísta (ele e a sua mulher chegam até a adotar um bebê cujos pais foram assassinados), humano (ajuda a acobertar uma guerrilheira comunista para que não seja capturada pela CIA) e muito astuto. Tem o caráter de Gandhi e a esperteza de 007, um tipo construído sob medida para o público americano. Seu maior desvio moral é na cena em que dá um tiro em um pneu após uma batida banal de trânsito sob o olhar incrédulo de sua mulher. Já seu parceiro latino Javier Peña, tem lá os seus desvios, frequenta a zona colombiana, faz acordos com informantes do tráfico, etc. Os colombianos? Alegres, dançantes, mas estúpidos e corruptos…só mesmo os gringos para dar um jeito.

Vale lembrar que esses dois agentes são reais e foram consultores da produção da série.

Já no primeiro capítulo, ficamos sabendo que após o golpe do Pinochet em 1973 os traficantes teriam sido expulsos e aniquilados do Chile, pois “às vezes, os vilões fazem coisas boas”. Até a BBC comprou esta idéia, mas parece que a realidade é outra. Segundo reportagem de Laura Capriglione, citando como fontes diretas o jornal inglês The Guardian e o espanhol El País, o serviço secreto chileno participou ativamente do tráfico através de suas embaixadas no exterior.

Mas deixemos de ser ranzinza e elogiemos o que a série tem de melhor: é muito bem filmada e dirigida, não se pode negar que o Padilha é muito competente. Wagner Moura, mesmo com toda a questão do sotaque, faz um bom trabalho – embora não seja da melhor safra do ator – na sua criação de Pablo Escobar como o monstro colombiano carrancudo. O resto do elenco está bem também, apenas o Boyd Holbrook, que é o agente Murphy,  destoa um pouco, com uma atuação meio canastrona.

Mas outro detalhe que me chamou a atenção foi uma cena copiar-colar do Tropa de Elite 1 de uma tortura feita com sacos plásticos. Só faltou o Wagner Moura dizer “põe na conta do papa”.

Não é uma série ruim, muito pelo contrário, ela flui muito bem e se assiste rapidamente todos os dez capítulos, que a Netflix disponibiliza tudo de uma vez.

A questão é que os produtores vendem o peixe de que a série é um retrato fiel da realidade – e espertamente as cenas reais que são inseridas ao longo dos capítulos reforçam a impressão de um semi documentário – quando é na verdade a versão muito bem realizada de um lado bem definido, um pouco do que a diretora picareta Kathryn Bigelow fez com A Hora Mais Escura.

Pois é Padilha, você fez o seu Conquista da Honra, falta agora filmar o seu Cartas de Iwo Jima.

Vamos esperar a segunda temporada.

Como refresco segue abaixo um vídeo do youtube com entrevistas do (real) Pablo Escobar.

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Dica: soundtrack True Detective “Nevermind”

images vvvvSempre que assisto uma série ou um filme fico ligada nas músicas. A trilha sonora muitas vezes é um espetáculo a parte e dá uma maior emoção a história que está sendo contada. Neste post, indico o tema de abertura da série True Detective season 2 da HBO. A música é “Nevermind” do cantor canadense Leonard Cohen, que soa quase como um poema. Aliás o cantor começou a carreira como poeta e a própria canção da série foi escrita como uma poesia. Essa não foi a primeira vez que Leonard Cohen emprestou seu jeito peculiar de cantar para a indústria do entretenimento. Em 1971, Robert Altman usou três músicas de Leonard Cohen no filme faroeste Mc Cabe & Mrs. Miller. Seguindo o sucesso, a música I’m your Man foi tema de Christian Slater no filme “Pump up the Volume” – tradução “Um som diferente”. E no mais famoso “Assassinos por natureza”, a canção “The future” do álbum com o mesmo nome, de 1992, está entre as playlists do célebre filme. Em 1984 Cohen também apareceu na série Miami Vice como convidado. Agora, ele volta em True Detective com a mesma essência na voz suave e sussurrante, com uma das faixas do disco Popular Problems.



Sbre Eanne