Mesóclise

2017-01-24-12-35-20

“os poderes constituídos rir-se-ão da vontade popular enquanto ella se manifestar dentro dos limites da lei”

A Plebe, 11 de Junho de 1921

Atualíssimo.

(A imagem destacada deste post na página principal é do artista polonês Marcin Owczarek.)

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Viva a democracia!

Para comemorar esta semana, faremos uma ode à democracia, essa moça tanto desejada, apregoada em todos os lados, seja de cima para baixo, da direita para a esquerda…enfim, nesta terra onde uma nefasta ditadura reinou durante 21 anos, sendo por ela substituída como uma esperança de uma sociedade melhor.

Devemos nos perguntar: é esta a democracia que precisamos para um mundo mais igual e humano? uma democracia altamente verticalizada, onde juiz é deus e delegado doutor?

Democracia sem horizontalidade é conversa para boi dormir.

Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais vivos, nos fornece uma uma pequena aula sobre a questão. Veja aqui.

Mas, enquanto isso, celebremos a democracia, nas charges de vários artistas geniais.

Viva! Viva!

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Henfil-queremos-o-poder2democracy 1Very funny Humor Cartoon Jokes on Democracy

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Vítimas da Sociedade

angeli desigualdade social

Acho Bezerra da Silva extraordinário. Muitos, inclusive pagodeiros de longa data, o consideram um sambista engraçado, talvez o protótipo do carioca irreverente, com a sua boina branca e postura de malandro das antigas. Para ser ouvido em churrasco, com muita cerveja e calor, repetindo o refrão dos seus sambas, de preferência bem alto  (Se gritar pega ladrão, não sobra um meu irmão…..).

Por ignorância ou simplesmente alienação política, não levam em conta que Bezerra foi um dos maiores críticos sociais que a MPB já produziu, através de letras inteligentes e bem sacadas críticas a esta hipócrita sociedade. Foi um precursor dos Racionais MC – outro gigante cujas letras, especialmente nos seus dois primeiros CDs, valem mil vezes mais do que muitas teses de doutorado – outro grupo oriundo da periferia que em qualquer lista séria estaria entre os grandes da MPB nos últimos vinte anos.

Lendo as notícias dos últimos dias, sobre o digníssimo presidente da Câmara dos Deputados, terceiro na linha de sucessão na nossa amada República das Bananas, e outras um pouco mais antigas, como por exemplo a tal lista do HSBC, que misteriosamente saiu da grande mídia, me veio a mente o seguinte trecho da música Vítimas da Sociedade:

No morro ninguém tem mansão
Nem casa de campo pra veranear
Nem iate pra passeios marítimos
E nem avião particular
Somos vítimas de uma sociedade
Famigerada e cheia de malícia
No morro ninguém tem milhões de dólares
Depositados nos bancos da Suíça

Se vocês estão a fim de prender o ladrão
Podem voltar pelo mesmo caminho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho
O ladrão está escondido lá embaixo
Atrás da gravata e do colarinho

O cara era ou não era um gênio?

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E a Grécia disse não!

Leio na BBC que os gregos disseram “NÃO” à proposta de continuação do pacote de austeridade proposto pela União Européia.

Noves fora a discussão econômica – que é o ponto central da questão afinal de contas – a simbologia política atrás deste referendo é enorme.

Não por coincidência, o colunista Demetrio Magnoli escrevia ontem, 04 de Julho, na sua coluna semanal na Folha de S. Paulo, que “Amanhã, tudo indica, os gregos dirão “Sim” à Europa – e, portanto, “Não” ao seu governo...” e triunfalmente concluía seu artigo com “Amanhã, brindemos ao Sim“. Demetrio Magnoli é um bom intelectual de aluguel – nunca se sabe onde termina a sua opinião e onde começa a dos seus patrões, no caso a própria Folha, a Globo News ou a síntese de tudo isso, o think-tank Instituto Millenium.

O povo grego disse não a uma doutrina que é vendida como única, e que mais ou menos desde o golpe de 1973 no Chile –  e contundentemente desde o início dos anos 80  a partir da ascensão de Thatcher na Inglaterra e de Reagan nos Estados Unidos – é martelada como verdade econômica absoluta todos os dias nos grandes veículos de mídia: o neoliberalismo, nas suas várias e diversas vertentes.

Vale a pena, para quem se interessar, ler o artigo de Pierre Bourdieu sobre a sua essência publicado em 1998 no Le Monde Diplomatique. Aqui disponível em português.

Quando escuto que vivemos no Brasil uma grande crise, acho que se esquece o que realmente significa uma crise. Segundo a BBC, “a taxa de desemprego está em 26%, a mais alta de toda a União Europeia. Entre os jovens, esta taxa supera os 60%. Milhões de gregos vivem abaixo da linha da pobreza.”  Não se sabe o que virá agora, mas acho que a mensagem política que a Grécia mandou ao mundo é muito mais importante do que pode parecer hoje.

As vezes a manufatura do consenso falha, e isso é ótimo para a humanidade. Mas quem melhor definiu o sentimento do povo grego foi o grande Lemmy Kilmister:

Essa foi pra você Angela Merkel!!
Essa foi pra você Angela Merkel!!

Em terra de cego quem tem um olho é rei

Foto: Geraldo Magela/ Agência Estado/ Carta Capital
Foto: Geraldo Magela/ Agência Estado/ Carta Capital

É fato que o Governo atual se mostra incapaz de desenvolver uma articulação eficiente, de mostrar coerência entre o discurso e a prática e dar credibilidade a este mandato, pelo o menos aos seus eleitores. Ou seja, o Governo não contribui para diminuir e abrandar sua auto propaganda desastrosa que só alimenta aos que sentem ódio e não estão dispostos a ver o outro lado da moeda. Sim, toda moeda tem dois lados, e neste caso é a moeda da troca, do famoso “toma lá da cá”, expressão tão recorrente na política brasileira. O mais triste é que o outro lado tem como protagonistas dois políticos que figuram entre os principais líderes do Estado: Renan Calheiros (presidente do Senado) e Eduardo Cunha (presidente da Câmara). Não é exagero dizer que a presidenta está nas mãos destes dois lobos que só aprovam as medidas do Governo se receberem benefícios, como cargos em Ministérios, estatais e por ai vai… Sempre me pergunto como esses oportunistas chegam a um cargo tão importante no cenário político, mesmo que as vezes tenham como base eleitoral Estados pouco expressivos economicamente como é o caso do excelentíssimo Renan Calheiros. Daí vem minha reflexão mais filosófica, que como Aristóteles afirmava, o homem é um animal político, e certas pessoas possuem habilidades e virtudes que se destacam de outras. O fato é que estes dois lordes da política são extremamente articulados, hábeis na arte da negociação e no mínimo persistentes aos objetivos que almejam. E só consigo ver estas qualidades, mesmo que contrária e enojada ao que tudo o que estes hipócritas representam. Sempre lembro da propaganda partidária do PMDB (sigla do partido dos caros cavalheiros), que por uma distração me peguei assistindo e conferindo as hipocrisias lançadas em pleno horário nobre da televisão. O Sr. Eduardo Cunha dizia, entre outras balelas, que já dava início a uma reforma  política de verdade. Para ser de verdade, esses políticos teriam que ter uma virtude que eles não tem: honestidade. E assim se explica como certas pessoas se destacam das outras e exercem o poder, se detém da influência e se perpetuam numa posição privilegiada defendendo os interesses próprios e daqueles que os seguem.

Fontes: Carta Capital, YouTube.

Sbre Eanne