Making a Murderer ou o que fazer quando a pata do Estado cai sobre você

A série documental Making a Murderer (Fabricando um assassino) lançada recentemente pela Netflix, causou alguma repercussão aqui no Brasil e um verdadeiro rebuliço nos Estados Unidos.

Nada mais justo: se você não viu, dê um jeito de ver. É muito bem dirigida e construída, vimos os dez episódios em três ou quatro dias. As questões nela envolvidas vão muito além da inocência ou culpa do protagonista; têm a ver com as relações que nós, enquanto cidadãos, temos com o Estado.

No primeiro episódio somos apresentados a Steven Avery, cidadão branco de uma cidadezinha chamada Manitowoc, no estado de Wisconsin. Homem simplório, branco, cuja família é dona de um ferro velho, pobre mas não miserável. Somos informados que a família Avery não é bem vista na cidade, que provavelmente não eram religiosos ou iam à igreja.  Steven Avery é acusado de estupro, as provas não são lá muito consistentes, o seu álibi foi desprezado, enfim, ele é finalmente condenado, sempre se declarando inocente.

Em 2003, após DEZOITO anos, um teste de DNA prova a sua inocência e ele é solto. Ele resolve processar o Estado (no caso, a cidade de Manitowoc). Em 2005, um assassinato ocorre no ferro velho da família, e Steve é declarado o principal suspeito. De quebra, um sobrinho de dezesseis anos, ingênuo e igualmente simplório, Brendan Dassey, é detido também por participar do crime. Ambos são julgados e condenados.

Há muito mais do que isso na série. Assista e tire as suas próprias conclusões.

Gostei muito de uma crítica de um professor de direito, e concordo que uma das mais importantes frases da série é aquela que um advogado da defesa de Avery diz que “você pode jamais ter cometido um crime, mas nada impede que a polícia te acuse de ter cometido um crime”.

Para quem, ou é negro, ou pobre ou mora na periferia, isto não é novidade. O sábio Bezerra da Silva já cantava em Homem Inocente:

“Doutor, este homem é inocente,
procure saber a verdade,

não deixe que o pobre coitado perca a liberdade

Mas a grande questão é aceitar o quanto somos cidadãos vulneráveis se por algum motivo a pata do Estado resolve cair sobre você. É claro que a probabilidade é maior conforme a cor da sua pele, seu grau de pobreza ou então as suas convicções políticas ou religiosas. Na série isto é claro: desde o primeiro julgamento, o Estado – em todas as instâncias -quer condenar Steven Avery e não importa quantas e quão fortes sejam as evidências em contrário.

Há muito anos atrás li O Processo de Kafka. Nele um cidadão comum é preso, processado e condenado sem nunca ser informado do porquê. O Estado queria eliminá-lo e assim o fez. Kafka escreveu uma alegoria sobre um regime totalitário, mas não importa: making a murderer se passa nos Estados Unidos, supostamente uma das maiores democracias do mundo. É um caso isolado? Claro que não, basta ver a série Paradise Lost ou o documentário The Thin Blue Line, de Errol Morris.

E é assustador saber que casos como esse acontecem todos os dias no Brasil.

Para quem lê inglês, um artigo crítico (não concordo com a autora em alguns pontos) à série pode ser vista aqui. Para o processo de criação da série, clique aqui para ver o ótimo artigo da Buzzfeed.

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O diário de Anne Frank

Apesar deste livro ter sido publicado pela primeira vez em 1947,  já ter vendido mais de 30 milhões de cópias e ser uma história relativamente conhecida, gostaria de deixar minha impressão neste post. Só agora que me interessei por ler o livro da jovem Anne Frank, talvez influenciada pela viagem que fiz a Holanda.

A edição que li não foi supostamente a mais completa. Existe a versão definitiva que conta a história, desde a perseguição nazista na Alemanha, com fotos e trechos inéditos até a vinda da família Frank para Amsterdam.

A história já é bem conhecida, então não é segredo para ninguém a morte da família e dos companheiros do anexo secreto, sendo o único sobrevivente o pai de Anne, Otto Frank. No início, o relato foi contestado e depois de alguns anos foi comprovada a veracidade dos acontecimentos, até porque este diário tornou-se um documento importante doado pelo pai ao Instituto Holandês para Documentação da Guerra. Ainda há pontos que não foram esclarecidos, como por exemplo se os ocupantes do anexo teriam sido traídos,  e de tempos em tempos aparecem versões diferentes da primeira versão.

O fato é que o livro é um símbolo do que ocorreu a partir da década de 40 com a perseguição dos alemães aos judeus. Não que seja uma história tão diferente como a de muitos outros que sofreram na época, mas que retrata uma menina de 13 anos com seus sonhos, seus ideais, suas dúvidas, seus desejos, que tinha um futuro que foi tomado pela ignorância humana.

A história do livro se concentra nos pensamentos de Anne que mesmo vivendo com medo que a Gestapo descobrisse o anexo, escrevia sobre o cotidiano no esconderijo e sentimentos próprios de uma adolescente. Demonstra como o nazismo matava: em meio a esperança e o medo, os alemães não tinham piedade.

O fim do relato é a própria vida de Anne Frank. Depois de tanto tempo vivendo escondida, de repente é presa e levada a um campo de concentração. Para quem gosta do assunto vale a pena ler porque é mais uma história comovente sobre o Holocausto.

 Um site interessante para conhecer a história mais detalhada e saber mais sobre as pessoas envolvidas através de uma linha do tempo é o www. annefrank.org.

Sbre Eanne

 

Lemmy

A notícia de sua morte veio no início da nossa viagem para a Holanda. Como se fosse um velho amigo que morava ali pertinho disse cá comigo, mas porra, logo ele?

Assisti a um documentário ou uma entrevista – não me lembro – que o Lemmy dizia mais ou menos que quando você está triste ou depressivo basta colocar um rock´n´roll para tocar que todos os maus sentimentos vão embora. Achei bem legal quando a li.

Muitas vezes ouvi Motorhead em momentos como esse. Mau dia no trabalho? Bomba na faculdade? Fora de uma garota? Lemmy e o Motorhead resolvem.

O Ozzy Osbourne escreveu um artigo muito bacana logo após a sua morte na Rolling Stone, se você consegue ler em inglês, vale a pena ler aqui.

Cultuado no rock pesado, o Motorhead abria o seus shows dizendo “we are Motorhead we play rock´n´roll”. No documentário de 2010 ele descreve quais foram as suas fontes: melhor banda de todos os tempos? Beatles, claro. Melhor vocalista que o rock já teve? Little Richard.

Ele sabia das coisas.

Motorhead é rock´n´roll elevado à quinta potência.

Mas um lado que é menos lembrado – o Ozzy reforça isso nas suas lembranças – é quanto o Lemmy era um excepcional letrista. Que outro cara teria escrito “god was never on your side” (íntegra da letra aqui):

(…)

Let the voice of reason shine,
Let the pious vanish for all times,
God’s face is, hidden, all unseen,
You can’t ask him what it all means
He was never on your side,
God was never on your side
Let right or wrong, alone decide,
God was never on your side.

See the ten thousand ministries,
See the holy righteous dogs,
They claim to heal
but all they do is steal,
Abuse your faith, cheal & rob.
If god is wise, why is he still,
When these false prophets
call him friends,
Why is he silent, is he blind,
Will he see nothing in the end,

(…)

Há várias outras letras antológicas. Cada fã tem a sua.

Senti muito com a sua morte. Nunca fui aos seus shows, e olha que eles tocaram várias vezes no Brasil.

RIP Lemmy, as suas músicas são atemporais, como só os grandes fazem.

(não há contradição alguma, apenas sábio ecletismo, gostar tanto de Motorhead quanto de Jorge Ben Jor, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Cartola, Gilberto Gil.)

Terminando, para curtir nos momentos de desespero:

in the name of tragedy

e para escutar sempre…

I ain´t no nice guy

e um clássico, gravado no seu último álbum:

 

sympathy for the devil

lemmy jesus

Charles Bukowski: Vacas na Aula de Arte (Cows in Art Class) – Poesia da Semana 45 – 2015

bom tempo
é como
boas mulheres –
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável:
se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo.
uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado.

estou bebendo esta noite no Spangler’s
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali. estou bebendo no Spangler’s
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo –
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe; é o que devo
decidir:

matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?

livros… como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?

(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)

pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.

o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.

(Tradução de Jorge Wanderley: Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski. Bertrand Brasil 2003.)

Publicado originalmente em 1968 em:

Poems Written Before Jumping Out Of An 8 Story Window

O original pode ser visto aqui.

Devoradores de Sombras

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A realidade, quase sempre, supera a ficção.

As vezes assistimos a um filme, ou então lemos uma livro e vamos dormir reconfortados, pois tudo não passou de uma fantasia.

Mas qualquer um que tenha lido um pouco da história da humanidade sabe que a violência, a exploração e o abuso são características presentes desde que o primeiro hominídeo deu as caras por aqui neste planeta.

Muito pessimista para uma sexta? Talvez, ou somente realista demais.

O jornalista inglês Richard Lloyd Parry relata em seu livro Devoradores de Sombras (tradução de Rogério Bettoni, Três Estrelas, 494 págs, 2015) a história de Lucie Blackman, uma bonita garota britânica de 21 anos de classe média que em 02 de Maio de 2000, vai para o Japão para trabalhar como hostess no bairro boêmio de Roppongi em Tóquio e que após quase dois meses, em 01 de Julho, desaparece em um encontro com um cliente misterioso, para nunca mais voltar.

Parry tem uma boa prosa e descreve todos os eventos que vão desde a chegada de Lucie ao Japão, o seu dia a dia como hostess – e o significa ser uma hostess -, o seu desaparecimento, a chegada do seu pai para pressionar as investigações, que incluíram até um encontro com o então primeiro ministro Tony Blair, a morosidade da polícia japonesa, e finalmente a captura do suspeito e o seu posterior julgamento, com todas as peculiaridades da justiça japonesa.

Como residente em Tóquio, Parry foi capaz de descrever a cultura japonesa e tudo o que é dela decorrente, com um olhar não de um viajante ocasional, mas sim como alguém que está imerso algum tempo na sociedade. O seu relato do bairro de Roppongi e alguns de seus bizarros personagens são um ponto de destaque do livro.

Voltando ao início do post, seria quase impossível criar em uma ficção, um personagem tão complexo e repugnante como Joji Obara, o algoz de Lucie e de outras garotas que tiveram a infelicidade de topar com ele nas noites de Tóquio.

Ao descrever na parte 4 do livro a origem de Joji Obara, Parry conta um pouco de um passado recente que talvez o Japão gostaria de esquecer: o seu imperialismo feroz com os seus vizinhos asiáticos. Embora nascido no Japão, Obara é filho de pais coreanos que emigraram na primeira metade do século passado – os chamados zainichi – e que sempre sofreram forte discriminação dentro da sociedade japonesa. Neste caldeirão foi criado o estranho personagem que mudou de nome várias vezes e que quase nunca se deixava fotografar.

O comportamento da família Blackman, especialmente do seu pai Tim, é interessante do ponto de vista do percurso e das escolhas morais feitas, sendo no entanto injusto e impossível julgá-las, para alguém externo à família.

Enfim um ótimo livro, muito bem escrito, de fácil e envolvente leitura.

Lucie Blackman
Lucie Blackman
Lucie Blackman no aeroporto de Tóquio, 03 de Maio de 2000
Lucie Blackman chegando ao Japão, aeroporto de Tóquio, 03 de Maio de 2000
Joji-Obara
Joji Obara em uma das suas raríssimas fotos.
3/14/01--Kanagawa, Japan The beach and cave (right) where the British Hostess Lucie Blackman was murdered in 2000. Behind are the condominiums where her accussed killer, Jojo Obara, lived. All photographs ©2003 Stuart Isett All rights reserved This image may not be reproduced without expressed written permission from Stuart Isett.
Caverna onde Lucie Blackman foi encontrada, e ao fundo apartamento onde ela e Joji Obara se encontraram.

sobre parma

A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira

O livro “A Ferro e Fogo” deveria ser considerado um documento para que todos os brasileiros pudessem ler. É um trágico relato sobre a destruição da Mata Atlântica desde a chegada dos portugueses ao Brasil. O autor Warren Dean, um historiador americano, descreve de forma brilhante a devastação que assolou o país, primeiro devido a extração do pau-brasil, depois pelo cultivo da cana-de-açúcar e do café, além da derrubada e queimada para o pasto. Lembro que durante muitas passagens do livro, o autor menciona que a derrubada da Mata Atlântica era feita sem nenhum controle, sem nenhum10671_ga preocupação, como se toda aquela abundância de Natureza fosse durar para sempre. E não foram só os portugueses que contribuíram para o esgotamento deste bioma de floresta tropical, mas os próprios índios e descendentes. Também há relatos no livro sobre a sujeira nas cidades e os casos de roubos naquela época. É um livro minucioso, que prende a atenção pelos detalhes e retrata uma terra de riquezas abundantes, que não foi poupada pelos homens e mulheres que aqui se estabeleceram. Warren Dean, logo depois de escrever ” A Ferro e Fogo”, em 1994, morreu num trágico acidente (asfixiado pelo gás que vazou onde se hospedava) em Santiago, onde iria escrever um livro sobre os Andes.

Foto: Internet
Foto: Internet
Foto: SOS Mata Atlântica - mapa atual
Foto: SOS Mata Atlântica – mapa atual

Título: A Ferro e Fogo: a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira

Autor: Warren Dean

Editora: Companhia das Letras

nº de páginas: 484

Preço médio: R$ 67,00

Sbre Eanne

Uma confraria de tolos

Fiquei sabendo deste livro no blog do André Barcinski antes hospedado no UOL e agora no R7. Suas dicas de livros, cinema e música são excelentes.

A história do autor deste livro é trágica: John Kennedy Toole nasceu em Nova Orleans em 1937 e cometeu suicídio com 31 anos. Durante a sua breve vida ninguém deu bola aos seus talentos literários, e o seu reconhecimento se deu muitos anos após a sua morte, com o Pulitzer de 1981, o mais importante prêmio literário norte americano.

O livro se passa em Nova Orleans e a recriação da atmosfera da cidade é genial, assim como a da linguagem; este é um ponto interessante, pois Toole, especialmente através do personagem Burma Jones, consegue passar para o leitor as gírias e a maneira de falar típicas de Nova Orleans, e isso mesmo lendo o livro em português. Ponto positivo para o tradutor.

A galeria dos tipos criados por Toole é sensacional, a partir do protagonista Ignatius J. Reilly um gordão balofo que perambula pela cidade em busca de emprego, e que vive reclamando que os problemas do universo vêm da falta de teologia e geometria, A troca de correspondência com sua namorada Mirna Minkoff são impagáveis. Mas todos os personagens são dotados de graça e humor próprios, numa combinação rara de ironia, erudição e mise en scéne. Não há parágrafos à toa e cada página é muito agradável de se ler.

O livro é muitas vezes classificado com um romance picaresco, ou seja, uma prosa satírica, em que o protagonista provém de uma baixa classe social, e que através de sua inteligência – ou loucura, ou sendo não convencional – consegue de alguma maneira se sobressair na sociedade.

Um romance inesquecível, com um humor e ironia que transbordam a todo tempo.

E atualíssimo na caracterização dos tipos urbanos: não seria a Sra. Levy uma presença constante nas recentes manifestações da Av. Paulista?

sobre parma