Nas ondas do rádio

Uma das motivações que me levaram a viajar para outros países, conhecer outras línguas e culturas veio da infância e através do rádio.

Quando era criança, meu pai tinha um rádio Philco enorme, que sintonizava além das tradicionais AM e FM, outras sete sintonias em ondas curtas

radio ford philco 82

Era um equipamento enorme, e me lembro que passava algumas noites, na cabeceira da cama do meu pai – antes de ele ir dormir –  girando lentamente o dial, e assim que sintonizava alguma estação, escutava até que pudesse identificar a cidade de onde a rádio era.

Para as brasileiras, a tarefa era relativamente simples e o sonho de um dia visitar a cidade mais acessível também. Agora para as estrangeiras, a coisa se complicava… as emissoras da América do Sul eram mais comuns de sintonizar e naturalmente mais fáceis de identificar, já que fui criado em um ambiente onde o espanhol era um idioma tão comum quanto o português. Mas a glória era mesmo sintonizar uma rádio com uma língua indecifrável. Ficava horas tentando saber que idioma era aquele, e de que cidade. Se era AM, tanto melhor, por que era na maior parte falação. Quando conseguia, tinha um atlas em casa que consultava para ver onde estava a rádio.

Esse estranhamento no contato de uma língua diferente certamente aguçou a minha vontade de viajar. Ficava matutando na época, como  será que essas pessoas vivem, o que comem, para que time torcem? Naqueles tempos onde a internet nem era cogitada, a sensação de escutar ao vivo alguém do outro lado do mundo era incrível.

Uma vez, lembro que sintonizei um rádio que por alguma razão achei que fosse de algum país comunista, da antiga Cortina de Ferro. Achei o máximo e fiquei me perguntando se algum dia visitaria essa região da Europa. Desejo concretizado, muito tempo depois.

Fiquei pensando nisso tudo quando recebi por WhatsApp por um amigo um website muito interessante cujo link é

http://radio.garden/live/clifden/connemarafm/

Ele funciona melhor no meu celular Android, mas ele mapeia em um globo virtual todas as estações de rádio online, cada pontinho verde corresponde a uma estação, e no caso de mais de uma (muito comum em grandes cidades), no canto inferior da tela a relação de todas aparece, bastando pressionar qual se deseja reproduzir. Em questão de segundos, você desliza os seus dedos na tela e sintoniza desde a rádio Arara Azul FM 96.9 de Parauapebas no Pará até a LCFM 87.8 FM em Launceston, na Tasmânia (Austrália).

Muito mais fácil hoje em dia, mas acho que esta facilidade inibe um pouco a curiosidade. Lembro com muita nostalgia do rádio Transglobe do meu pai. Mas assim são as gerações, e a tecnologia atual permite sonhos talvez diferentes na forma mas iguais no conteúdo.

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Plinio Marcos é fundamental

“Não faço teatro para o povo, mas faço teatro em favor do povo. Faço teatro para incomodar os que estão sossegados. Só para isso faço teatro.”

No sábado fomos ao Teatro Garagem assistir Navalha na Carne, peça que Plinio Marcos escreveu em 1967. Faz, portanto, 50 anos. E parece que foi escrita ontem.

Plinio Marcos é atemporal, como Machado de Assis. Sua genialidade transcende gerações. O seu talento em retratar os miseráveis, os mal aventurados da sociedade não tem paralelo. Talvez não haja otimismo em suas peças, mas para a grande maioria das pessoas que neste planeta vivem otimismo é um conceito longínquo. Basta andar pelas ruas de São Paulo – Cidade Linda, segundo o midiático alcaide – para perceber isso.

Assisti a várias peças do Plinio Marcos. Vi Barrela, uma das suas primeiras, sobre o sistema prisional, com uma atuação fantástica do ator Jairo Mattos. Dois perdidos numa noite suja vi no teatro Orion, no centrão. Abajur lilás, outra peça fantástica. Meu pai era conhecido do Plinio Marcos, e na lembrança de criança lembro-me dele vendendo seus livros em porta de teatro. O romance Querô, que meu pai tinha em sua biblioteca, me marcou profundamente, li quando era adolescente, e mais tarde vi a sua adaptação ao cinema. Quando frequentei o Centro de Cultura, fiz uma leitura dramática da sua peça Quando as Máquinas Param, sob a direção do grande Fábio Ferreira Dias, sobre a relação de um jovem casal que vai se deteriorando devido ao desemprego e a crise econômica. Mais atual impossível.

Já havia visto Navalha na Carne outra vez, não lembro quando. A relação entre uma prostituta, seu cafetão e um serviçal homossexual em um quarto de pensão são desnudadas, as suas mútuas humilhações, as micro relações de poder entre personagens que por si só são excluídos da sociedade, revelando a profundeza, nem sempre bela, da alma humana.

Navalha na Carne

Enquanto houver excluídos e explorados em nossa sociedade, Plinio Marcos será fundamental. E pelo andar da carruagem, cada vez mais fundamental.

Sobre o espaço Teatro Garagem

Espaço pequenino – apenas 25 lugares – e intimista, idealizado pela atriz Anette Naiman, é um sobrado adaptado que outrora foi a residência da própria atriz. Lugar muito bacana, inclusive no sábado o elenco convidou o público para um vinho na casa, em razão dos 50 anos da peça. Espaço aconchegante, pessoal interessante e simpático. Um sábado muito legal.

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Estudar ou não estudar? Eis a questão.

Sem vv

No mundo de hoje o que mais recebemos durante o dia é informação superficial. Neste caso, estudar é a melhor maneira de obter conhecimento.

Estava lendo alguns textos sobre produção de conteúdo na internet e me deparei com a seguinte explicação: “a internet é feita de dados, que são a matéria-prima da informação e ela que você busca quando digita um w.w.w.. Hoje chamamos a informação de conteúdo e, dependendo das competências cognitivas do usuário/leitor, tudo isso torna-se conhecimento”. Mas para quem acha que conhecimento é tudo que se recebe vindo da internet está cometendo um erro. Vou explicar melhor.

Antigamente, você podia sentar no sofá com seu avô, sua tia, seus pais e eles começavam a contar histórias de vida, “causos” históricos, de família, curiosidades. Minha avó era assim. Estas histórias são conhecimento. Agora ninguém da família tem tempo para isso. Os pais chegam em casa e têm que fazer muitas coisas…os filhos estão ocupados (não importa a idade), porque fazem várias atividades extras e ainda têm que fazer lição de casa, dar uma olhadinha no Facebook, conversar com o amigo no Whatsapp. E a frase mais ouvida em casa é: ” tô ocupado”.

Por isso, se você tem a intenção de voltar a estudar, não pense duas vezes. Digo isso porque estudar é uma das únicas maneiras de você parar um tempo, sentar numa cadeira, se concentrar num assunto e poder entender sobre aquele tema de uma forma mais profunda.

Faça uma especialização, um mestrado (assim como eu, aos 40 anos) ou qualquer curso que vai oferecer a oportunidade de aprofundar um conhecimento sobre algo. Diante tantas informações superficiais, repetidas e às vezes mentirosas, quando você pega um livro de um bom autor (que te ajuda a pensar), você exercita o pensamento e estimula sua capacidade de refletir sobre várias coisas do tema e da vida.

Não se deixe ser bombardeado o dia inteiro (porque mesmo não querendo é inevitável) por informações irrelevantes, que não contribuirão com nada. Exercite sua mente.

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O que você sabe sobre o suicídio?

No mundo

Você já conheceu alguém que cometeu suicídio? Eu pelo menos conheci umas três pessoas no meu círculo de relacionamentos. O tema sempre foi um tabu e talvez por isso não saibamos alguns detalhes sobre este tipo de morte.

Um artigo publicado na Revista Brasileira de Psicologia em 2015, revela que o suicídio é um fenômeno mundial e é considerado um significativo problema de saúde mental. Para se ter ideia, a taxa de mortes por suicídio foi de 1,5% do total de óbitos no mundo, ou seja, houve mais mortes deste tipo do que assassinatos e mortes por guerras ocorrido num ano.

A OMS (organização mundial da saúde) ainda acredita que este número seja maior, devido as falhas de registros nos países. É a segunda causa de mortes de jovens no mundo. “Países populosos como Índia, China e Brasil, apesar do grande números de casos, apresentam baixas taxas de suicídio”, diz a pesquisa.

A Guiana, um pequeno país com a população aproximada de 800.000 que fica ao norte da América do Sul é onde há a maior taxa mundial de suicídios no mundo (ver reportagem BBC). Segundo a reportagem, as causas geralmente são “desavenças familiares, problemas de relacionamento e violência doméstica”.

Um dado levantado pela OMS é que 75% casos de suicídio se dão em países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, apontando para uma correlação entre situação econômica e taxas de suicídio, ainda que esta não seja determinante.

Em relação a idade está havendo uma inversão na distribuição de casos. Os jovens na faixa etária de 5 a 44 anos cometem mais suicídios que os adultos com idade acima de 45 anos e essa tendência parece se manter nos próximos anos.

O suicídio é mais comum entre homens e a tentativa de suicídio entre as mulheres (dados observados historicamente). Estima-se que a cada morte por suicídio de adulto ocorram ao menos 20 tentativas de suicídio, o que representa uma tentativa de suicídio a cada segundo, sendo esta, o principal indício de suicídio.

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No Brasil

  • Suicídio é responsável pela morte de 3,7% dos jovens (15 a 29 anos);

  • Região Norte é onde se concentra o maior números de mortes por suicídio;

  • Os homens cometem mais suicídios do que as mulheres;

  • Local: a própria casa é o cenário mais frequente (51%), seguida pelos hospitais (26%).

  • Os principais meios utilizados são enforcamento (47%), armas de fogo (19%) e envenenamento (14%). Entre os homens predominam enforcamento (58%), arma de fogo (17%) e envenenamento por pesticidas (5%). Entre as mulheres, enforcamento (49%), seguido de fumaça/fogo (9%), precipitação de altura (6%), arma de fogo (6%) e envenenamento por pesticidas (5%).

É importante estar atento aos sinais prévios do suicida: mudança de comportamento, depressão, angústia, desinteresse e não subestimar quando uma pessoa diz que quer cometer o suicídio. Muitas vezes pensamos que se trata de algum problema pontual, mas pode ser alguma coisa mais grave e por isso vale toda a atenção.

O CVV – Centro de Valorização da Vida realiza apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email, chat e Skype 24 horas todos os dias.

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Mesóclise

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“os poderes constituídos rir-se-ão da vontade popular enquanto ella se manifestar dentro dos limites da lei”

A Plebe, 11 de Junho de 1921

Atualíssimo.

(A imagem destacada deste post na página principal é do artista polonês Marcin Owczarek.)

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Memórias

O mundo é um lugar muito grande comparado com a nossa existência. Existem lugares que nunca conheceremos, línguas que nunca ouviremos, sabores que nunca provaremos. A maioria das pessoas não liga para isso e passam praticamente toda a sua vida próximo ao lugar onde nasceram ou então próximo ao lugar onde se estabeleceram. Não há nenhum mal nisso, é uma opção de vida e as tecnologias atuais permitem ir virtualmente aonde se queira.

E também a boa literatura nos convida à conhecer lugares remotos. Um ótimo exemplo é o romance Mongólia do brasileiro Bernardo Carvalho.

Mas quem curte – verdadeiramente  – viajar, a sensação do desconhecido é fantástica, e se for para algum lugar ou país distante, a excitação é maior ainda, pois nunca se sabe se vai ser possível lá voltar até o final da vida, e, por esta razão as sensações serão únicas.

Acho provável que nunca mais voltarei a Aleppo e Damasco na Síria e talvez minha filha não tenha a oportunidade de visitar os mesmos lugares que eu.

Por exemplo, no sítio arqueológico de Palmira, sempre poderei dizer que “Eu estive lá, ninguém me contou, eu mesmo vi” . A humanidade constrói e destrói na mesma proporção.

Acabamos de voltar de Seychelles, uma ilha no oceano índico pertencente ao continente africano.

O que era na semana passada realidade, agora são memórias.

Desejo muito poder voltar.

Enquanto isso não acontece, fecho os olhos e sinto tudo aquilo que vi, tateei, cheirei e saboreei.seychelles-1

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Por que os brasileiros não ganham muitas medalhas?

Sei que agora é tarde para fazer este comentário porque o Brasil foi escolhido para sediar as Olimpíadas em 2009, ou seja, 7 anos atrás, mas assistindo aos jogos me dei conta que o Governo, de quem é a responsabilidade de organizar o evento, só se preocupou com a parte financeira das Olimpíadas.

Na verdade, o planejamento com os atletas se mostra ineficiente, apesar de ter tido algum esforço com a construção de alguns centros de treinamento, como o Arena Caixa, localizada em São Bernardo do Campo (SP), e que foi inaugurada em março de 2014; com os programas de apoio financeiro, como o bolsa-atleta, que oferece ao esportista olímpico uma ajuda financeira no valor de R$ 3.100,00; e o Plano Brasil Medalhas, que investiu 1 bilhão adicional aos esportes olímpicos e paraolímpicos para o Rio 2016. Esse valor foi dividido entre a contratação de técnicos e equipes multidisciplinares, compra de equipamentos e materiais, viagens para treinamentos e competições, construções, reformas e equipagem de centros de treinamento de várias modalidades e complexos esportivos e ações voltadas para o apoio dos atletas como o Bolsa Pódio. Esse último, de acordo com a página Brasil 2016, assegura ao competidor uma bolsa que varia entre R$ 5.000,00 a R$ 15.000,00 dependendo das classificações em Mundiais e competições internacionais.

A maioria dos atletas possuem o benefício que tem o intuito de oferecer ao atleta apoio financeiro em troca de dedicação exclusiva ao esporte e resultados expressivos nas competições de alta performance, uma vez que a manutenção da bolsa é analisada pelos resultados obtidos.

Um dos atletas beneficiados pela Bolsa Pódio é a medalhista de ouro Rafaela Silva, os ginastas Diego e Daniele Hipólito, a judoca Sarah Menezes, o nadador Leonardo de Deus, entre outros.

No entanto, somente o incentivo financeiro não é suficiente para fomentar e transformar o esporte brasileiro. Nos jogos das Olimpíadas Rio 2016 vale algumas observações.

Os atletas não tem uma consistência nos Jogos Olímpicos. Um exemplo é a judoca Sarah Menezes que foi campeã com medalha de ouro em Londres 2012 e agora “em casa” não conseguiu passar pela primeira fase.

O incentivo oferecido pelo Governo não foi capaz de beneficiar e revelar novos nomes, já que as bolsas eram concedidas para atletas já consagrados. Muitos esportes com tradições de conseguir medalhas para o Brasil como o judô e a natação, não conseguiram um bom desempenho no próprio país.

Na minha opinião, os atletas brasileiros precisam trabalhar muito o lado psicológico. Eles são vulneráveis as pressões, que são normais num ambiente competitivo. É só prestar atenção nos discursos e choros “desconsolados”. Até a Rafaela Silva no final da luta, quando já tinha ganho o ouro, não conteve as lágrimas que pareciam de quem havia percorrido um calvário para chegar ali. Prova que nosso esporte precisa de uma atenção especial.

Um exemplo a ser seguido é a Austrália. Uma série de medidas, como recursos abundantes, instrumentos bem aplicados e vontade política fizeram o país dos cangurus deslancharem e de 5 medalhas de Bronze em Montreal (1976) conseguiram 58 nos Jogos de Sydney (2000), país sede. Foram mais de 20 anos para obter resultados, mas a Austrália é um modelo para as nações que querem investir com sucesso em seus atletas. No próximo post vou falar um pouco sobre o que foi realizado nesse país da Oceania.

Sbre Eanne