Filme – Beasts of no nations

Agu ( Abraham Attah)
Agu ( Abraham Attah)

Fazia tempo que não assistia a um filme tão tocante como Beasts of no nation. O longa é uma produção da Netflix. No meio de algumas polêmicas que apontam vantagem da empresa em lançar o filme pelo canal e no cinema, há boatos que Beasts of no nation concorrerá ao Oscar 2016 com grandes chances de sucesso. O filme é sobre um país não identificado na África que está em guerra civil (rebeldes e soldados do governo lutam entre si). No meio desta disputa, o destaque é a trajetória do menino Agu (Abraham Attah numa bela interpretação), que foge depois que o vilarejo em que vive é atacado. Então ele é capturado por um fanático que se intitula comandante ( Idris Elba) e possui um exército de meninos soldados. O filme mostra todo o ódio que crianças órfãs sentem ao se verem sozinhas no mundo. O grupo do comandante é a única coisa que lhes resta.

Dada Goodblood ( Idris Elba)
Dada Goodblood ( Idris Elba)

Filmado em Gana, o longa é baseado na obra do escritor nigeriano Uzodinma Iweala’s e dirigido pelo excelente Cary Fukunaga (True Detective). Apesar de ser uma ficção já havia lido sobre uma história real semelhante ao do comandante Dada Goodblood. Joseph Kony era o líder de uma guerrilha que agia na região da África Central. Ele sequestrava crianças e fazia uma lavagem cerebral transformando-as em soldados que cometiam as piores atrocidades. O caso foi divulgado na internet através de um vídeo e acabou sendo o viral mais rápido da história da rede. Além disso, inspirou a criação da organização Invisible Chidren que mobilizou o mundo e lançou a campanha ” Kony 2012″ com o objetivo de chamar a atenção para a tragédia vivida pelos meninos africanos. Vale a pena ver o filme, vale a pena ler o depoimento de um dos discípulos de Kony clicando aqui.

Sbre Eanne

Uma crítica a Narcos

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Em 2006, o grande Clint Eastwood lançou dois filmes antológicos: Flags of Our Fathers (Conquista da Honra) e Letters from Iwo Jima (Cartas de Iwo Jima), ambos como tema Iwo Jima, uma das grandes batalhas da segunda grande guerra, ocorrida no início de 1945 no Pacífico. O primeiro filme é falado em inglês e conta a história do ponto de vista americano; o segundo é falado em japonês e conta a mesma história, mas os protagonistas e narradores são japoneses. Clint é um ferrenho conservador, mas sem dúvida um dos maiores diretores de cinema vivos (OK, não levo em conta a bobagem de Sniper Americano de 2014), que neste dueto exercitou com maestria a arte de contar uma história através de duas visões diferentes e por vezes antagônicas.

Quando o roteirista Chris Bancato e o diretor José Padilha fecharam o formato de Narcos foi decidido de que lado a história deveria ser contada.

Narcos é narrada em primeira pessoa através de Steve Murphy, agente da DEA (agência americana anti drogas) originalmente locado em Miami e que é transferido para a Colômbia para atuar na repressão do então crescente tráfico de cocaína para os Estados Unidos, no começo dos anos 90. Steve é fiel, incorruptível, altruísta (ele e a sua mulher chegam até a adotar um bebê cujos pais foram assassinados), humano (ajuda a acobertar uma guerrilheira comunista para que não seja capturada pela CIA) e muito astuto. Tem o caráter de Gandhi e a esperteza de 007, um tipo construído sob medida para o público americano. Seu maior desvio moral é na cena em que dá um tiro em um pneu após uma batida banal de trânsito sob o olhar incrédulo de sua mulher. Já seu parceiro latino Javier Peña, tem lá os seus desvios, frequenta a zona colombiana, faz acordos com informantes do tráfico, etc. Os colombianos? Alegres, dançantes, mas estúpidos e corruptos…só mesmo os gringos para dar um jeito.

Vale lembrar que esses dois agentes são reais e foram consultores da produção da série.

Já no primeiro capítulo, ficamos sabendo que após o golpe do Pinochet em 1973 os traficantes teriam sido expulsos e aniquilados do Chile, pois “às vezes, os vilões fazem coisas boas”. Até a BBC comprou esta idéia, mas parece que a realidade é outra. Segundo reportagem de Laura Capriglione, citando como fontes diretas o jornal inglês The Guardian e o espanhol El País, o serviço secreto chileno participou ativamente do tráfico através de suas embaixadas no exterior.

Mas deixemos de ser ranzinza e elogiemos o que a série tem de melhor: é muito bem filmada e dirigida, não se pode negar que o Padilha é muito competente. Wagner Moura, mesmo com toda a questão do sotaque, faz um bom trabalho – embora não seja da melhor safra do ator – na sua criação de Pablo Escobar como o monstro colombiano carrancudo. O resto do elenco está bem também, apenas o Boyd Holbrook, que é o agente Murphy,  destoa um pouco, com uma atuação meio canastrona.

Mas outro detalhe que me chamou a atenção foi uma cena copiar-colar do Tropa de Elite 1 de uma tortura feita com sacos plásticos. Só faltou o Wagner Moura dizer “põe na conta do papa”.

Não é uma série ruim, muito pelo contrário, ela flui muito bem e se assiste rapidamente todos os dez capítulos, que a Netflix disponibiliza tudo de uma vez.

A questão é que os produtores vendem o peixe de que a série é um retrato fiel da realidade – e espertamente as cenas reais que são inseridas ao longo dos capítulos reforçam a impressão de um semi documentário – quando é na verdade a versão muito bem realizada de um lado bem definido, um pouco do que a diretora picareta Kathryn Bigelow fez com A Hora Mais Escura.

Pois é Padilha, você fez o seu Conquista da Honra, falta agora filmar o seu Cartas de Iwo Jima.

Vamos esperar a segunda temporada.

Como refresco segue abaixo um vídeo do youtube com entrevistas do (real) Pablo Escobar.

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The Honourable Woman (Série TV)

honourable woman

Produzida pela sempre competente BBC, esta série de oito capítulos tem como pano de fundo o eterno conflito palestino-israelense e a relação deste com os destinos de uma família judaica estabelecida na Inglaterra.

Não há indiferença em se tratando de Oriente Médio: tomando emprestado o título de um excelente livro de Howard Zinn, você não pode ser neutro num trem em movimento.

O que o roteirista Hugo Blick fez foi criar personagens que de alguma forma compusessem um mosaico do conflito, mas é impossível construir uma ficção em que ambos os lados sejam tratados de maneira equânime. Sempre haverá uma simpatia aqui e uma empatia acolá, que reflete a visão de mundo e os interesses do autor. Quem assistir a série pode tirar suas próprias conclusões, que aliás podem ser distintas das minhas.

Mas de maneira nenhuma critico a qualidade da série. O roteiro é muito bem construído e os diálogos são excelentes, muitas vezes com uma fina ironia da maneira que só os ingleses conseguem fazer.

É também uma história de espionagem das boas.

Um ponto alto da série é a excepcional atuação do ator irlandês Stephen Rea no papel do espião do MI5 inglês Sir Hugh Hayden-Hoyle. É um agente que não dá um tiro, não usa força física, não levanta nunca a voz, conseguindo avançar nas suas investigações apenas com o poder da dedução lógica e uma grande perspicácia. Lembra o trabalho de Gary Oldman em “O espião que sabia demais”. Um trabalho memorável, como só os grandes atores são capazes de fazer.

O restante do elenco está ótimo, com destaque para a Maggie Gyllenhaal, que inclusive ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz na categoria minisséries e filmes para televisão.

A produção já anunciou que não haverá uma segunda temporada. Ponto positivo, uma boa série não precisa ter necessariamente uma sequencia.

Já está disponível no Netflix. Vale a pena ver.

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Dica soundtrack: Vitamina C – Can do filme Vício Inerente

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Realmente Vitamina C e Can são nomes muito estranhos para uma música e uma banda. Mas é isso mesmo. Vitamina C é o nome de uma música da banda alemã Can. Ela faz parte da trilha sonora do filme Inherent Vice (tradução para o português Vício Inerente) , lançado em 2014 pelo diretor  Paul Thomas Anderson e protagonizado pelo perfeito Joaquin Phoenix. A respeito do filme, não recomendaria a um amigo, pois tirando a atuação de Phoenix que sempre vale a pena conferir, o filme é confuso e a história nada empolgante. Resumindo: a história que se passa nos anos 70 tem como enredo um investigador particular viciado em drogas Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix) que investiga o desaparecimento de sua ex namorada. O filme é um pouco complexo e você precisa prestar bastante atenção para entender alguma coisa.

Já a música Vitamina C que passa nos minutos iniciais do filme numa cena com o próprio Phoenix é eletrizante. Apesar da letra ser horrível “Ei você, você está perdendo, você está perdendo, você está perdendo, você está perdendo sua vitamina C…”, o som e a batida são exatamente descritas como o rock da banda formada em Colônia, na Alemanha: psicodélico.

O can é uma banda experimental, estilo banda de garagem que teve início em 1968 com os integrantes:  Holger Czukay (bateria), David Johnson (flauta), Jaki Liebezeit (baterista),  Michael Karoli (guitarrista) e  Irmin Schmidt’s (pianista). O primeiro álbum da banda Monster Movie (1969) já definia o estilo musical da banda: sons tocados espontaneamente e dirigidos por ritmos repetitivos. Hoje em dia todos os integrantes ainda fazem performances como músicos ou colaboradores solos.

Sbre Eanne

Deus Branco (Fehér isten)

Coloque em um liquidificador húngaro O Planeta dos Macacos, Espártaco e uma pitada de Marley e Eu.

O resultado é um surpreendente filme que é de certa forma, uma crônica dos tempos atuais.

Que eu me lembre, nunca havia visto um filme húngaro. Bom li o ótimo livro Budapeste do Chico Buarque e vi a sua excelente adaptação feita para o cinema, onde muitas das cenas são rodadas no país europeu. Mas definitivamente está longe de ser uma obra húngara de fato.

A Hungria é um país lindíssimo. Estive em Budapest duas vezes e na última estive em um museu que está entre os que mais me impressionaram, a casa do terror, assim batizada em alusão aos dois regimes ditatoriais que assolaram a Hungria no século passado, primeiro o nazismo e depois o estalinismo, na sua variante húngara. As salas foram criadas de forma a passar para o visitante o clima opressor e pesado dos regimes. A iluminação escura, a música de fundo realmente traz desconforto ao visitante. Há um vídeo que nunca me esquecerei, onde uma velhinha dá um depoimento dizendo que ela teve cinco ou seis filhos – não lembro exatamente – e que os nazistas os mataram todos, um a um, sobrando ela e o marido. Como alguém pode sobreviver depois disso é um mistério.

Atualmente, a Hungria é um dos países europeus que vêm registrando nos últimos anos um aumento crescente da extrema direita. Em uma reportagem recente da Deutsche Welle, é descrito que o partido extremista Jobbik está apenas três pontos atrás, segundo as recentes pesquisas, do partido Fidesz que é o partido que exerce o poder. Notar que o Fidesz já é um partido bem conservador. Nacionalismo, preconceito, baixo crescimento econômico, tudo isso é um caldo perfeito para movimentos de massa de extrema direita, mas é isto é tema para outro post.

Mas o que tudo isso tem a ver com o filme? O diretor do filme, Kornél Mundruczó, nasceu em 1975. Em uma recente entrevista, Mundruczó afirmou que filme reflete sobre a relação entre as maiorias, como estas criam as minorias e “… nós criamos nossos monstros, e nós os rotulamos como monstros,  cães de ruas, minorias ou o que você tiver…” e abre o filme citando uma frase do poeta austro-húngaro Rainer Maria Rilke: “tudo o que é terrível precisa do nosso amor”.

Basta lembrar que na Hungria há alguns anos atrás houve uma série de assassinatos a sangue frio praticados por extremistas de direita em pessoas da minoria cigana Roma.

Uma pequena sinopse do filme: uma adolescente Zsófia , filha de pais divorciados, de repente precisa passar uma temporada na casa do pai em razão de uma viagem de trabalho da mãe. O detalhe é que a filhota vem acompanhada do seu cão Hagen. Mas o cão não é aceito pelo pai, e pelos moradores do prédio onde ele vive. Há uma frase para mim emblemática do filme que é quando o síndico do pai vai reclamar sobre o cão e diz “É um cão de rua, de raça misturada, nenhuma raça húngara”. O cão é expulso da casa, solto nas ruas de Budapeste, é preso pela carrocinha, sequestrado por um qualquer e vendido a um amestrador, onde é barbaramente torturado, que instiga violência nele para ser um grande cão de briga. O Marley amoroso do começo do filme transforma-se numa besta sanguinária. Hagen se revolta, torna-se um líder entre os seus pares e incita uma revolução nas ruas de Budapeste procurando seus algozes. Ao se deparar novamente com Zsófia, a canidade – se nós temos humanidade por que os cães não teriam uma canidade? – se manifesta novamente, demonstrando afeto e respeito com alguém que sempre lhe deu atenção e amor.

Um grande achado, um grande filme, merecidamente ganhou o prêmio um certo Regard no festival de Cannes em 2014. Vale a pena ver.

Ficha Técnica

Título: White God (Fehér Isten)

Diretor: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kornél Mundruczó

Elenco: Zsófia Psotta, Sándor Zsoster, Lili Horváth, Gergeli Bánki

Produção: Proton Cinema, Pola Pandora Filmproduktions

Distribuição: Magnolia Pictures

Ano: 2014

País: Hungria, Alemanha

Trailer:

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Filme: Hacker

Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth)
Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth)

Muitas vezes assisto um filme por causa de um ator que gosto ou de um diretor. É uma aposta que o longa vai fazer sucesso pelo talento do elenco ou pela criatividade que o diretor tem para contar uma história. Ouvi falar do filme Hacker, título original Blackhat, do talentosíssimo Michael Mann ( Miami Vice, Inimigos públicos, Colateral, O informante, O aviador) e logo me empolguei para assistir. Mas para minha frustração o filme não tem nada de original e acaba tendo aquela velha história do super hacker que está preso e é recrutado para achar um outro hacker perigoso. Como prêmio, o protagonista Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth que atuou em Thor e Os Vingadores) tem sua pena de prisão perdoada pelo governo americano. O filme é cheio de clichês e a história não é nada empolgante. As cenas de ação (fracas, por sinal) acontecem depois de 40 minutos de filme. Além disso, os atores não conseguem se sobressair e o principal do filme, Chris Hemsworth, deixa claro porque só faz papéis de super-heróis. Uma pena que dentro de um currículo glorioso Michael Mann tenha deixado Hacker em sua lista.

Filme: Mad Max – Estrada da fúria

Pura ação. Mad Max é um filme de ação do começo ao fim. É aquele tipo de filme que você fica até nervoso na cadeira esperando mais uma cena de explosão, de luta, de fuga e não consegue nem olhar para o lado para não perder nada.

As cenas são eletrizantes e foram rodadas nos desertos da Namíbia, Cape Town, na África do Sul e Sidney, na Austrália. A paisagem árida do deserto contribui para uma brilhante fotografia. Os atores Charlize Theron (Furiosa) e Tom Hardy (Max) são merecedores de seus respectivos papéis, com destaque para a Furiosa, que mesmo com poucos diálogos consegue transmitir vários sentimentos pelas suas expressões. Despretensioso de uma história complexa e esse era o objetivo do diretor George Miller, o filme é puro entretenimento. E de primeira.

Cidadela
Cidadela
A caçada na tempestade de areia
A caçada na tempestade de areia
Furiosa e Max
Furiosa e Max
Charlize Theron como Furiosa
Charlize Theron como Furiosa

E ainda dá para fazer uma brincadeirinha…

Edição de imagens: Eanne
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Sbre Eanne