A Inglaterra triunfa!

Lendo hoje a estarrecedora e triste notícia no site da BBC sobre a onda de xenofobia na Inglaterra pós Brexit, me veio à lembrança a genial série em quadrinhos – ou sendo mais sofisticado, romance gráfico – V de Vingança, publicada originalmente,  na versão integral, na Inglaterra em 1988. Comprei esta história no começo dos anos 90, em uma banca perto da USP, e lembro que a li várias vezes e o impacto que ela me causou foi – e continua sendo – enorme.

Escrita por Alan Moore, um escritor inglês muito próximo ao anarquismo e da contra cultura, V de Vingança é uma história em um futuro distópico na qual a Inglaterra, saída de uma guerra brutal, é governada por um tirano brutal, notadamente fascista, onde a população diariamente ouve um programa de rádio intitulado “Voice of London”. Não há contraponto, a Voice of London é a única fonte de notícias admitida, onde o locutor brada:

“Good Morning London, this is the voice of fate” (Bom dia Londres, esta é a voz do destino)

“England prevails!” (A Inglaterra triunfa!)

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A história foi muito bem adaptada para o cinema no filme homônimo de 2006, com a direção de James McTiegue, com presenças de Hugo Weaving, Natalie Portman e o grande Stephen Rea.

Se você não viu veja, e se puder leia a história original, é genial.

A saída do Reino Unido é uma vitória da xenofobia, mas não só dela, como bem observou a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, brasileira professora em Oxford, em artigo reproduzido no Tijolaço.

Parece que a volta do fascismo, que tanto assombrou a Europa no período entre guerras, está ressurgindo com força, em vários países distintos. Uma era de anti-iluminismo e ódio, onde as diferenças são exaltadas. E não é só na Europa, nos EUA Donald Trump tem grandes chances de vencer a eleição em Novembro.

E por aqui o presidente interino usurpador, cercado e sustentado por uma escória política e uma mídia abjeta. O governo deposto era sem dúvida medíocre e incompetente, mas eleito, dentro das regras da democracia burguesa.

As elites agressivas, xenófobas e misóginas de São Paulo nunca estiveram tão bem representadas. Triste e desolador.

Voltando ao V de Vingança, há uma passagem memorável, em que o ativista V confronta a justiça, representada por uma estátua, dizendo “você não é mais a minha justiça, é a dele. Recebeu outro em sua cama”

V de Vingança

Tempos bicudos estes.

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La Tierra y la Sombra

Há uma cena, quase no final do filme, em que dois protagonistas sentam-se em um banco à beira de uma árvore enorme, e o homem comenta com a mulher, “ se lembra quando caminhávamos no meio dos laranjais e outras árvores…” e ela retruca “isto faz muito tempo”. Na imagem, além do banco e da árvore centenária, canaviais por todos os lados.

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Zona canavieira no interior da Colômbia. Um homem volta à sua casa após muitos anos, reencontrando sua mulher, filho, a nora e um neto que nunca havia visto. A casa é muito simples. O filho está muito doente, sofre de insuficiência respiratória causada pelas cinzas proveniente das queimadas. O sustento da casa é feita pela nora e pela mulher, cortadeiras de cana, trabalho miserável, insalubre e cansativo.

Modernidade é por vezes relativa; na família deste filme, ela não trouxe internet, iphones, melhor acesso à educação ou saúde. As relações  trabalhistas retratadas remontam ao início da revolução industrial. A nostalgia dos personagens mais velhos é um fato: no passado as coisas eram melhores, maior dignidade havia em viver.

O filme é quase documental, não há muitos diálogos. A fotografia é melancólica. A miséria e a exploração são elementos constantes, entremeados com pitadas de amor e decência humana, pois como compôs Tom Jobim, a tristeza não tem fim, a felicidade sim. A ausência de religião na parca mobília da casa e nos diálogos sugere que o lugar é tão miserável que até deus esqueceu-se de oferecer ajuda.

 

Há muitas cenas tocantes, como na singela cena do avô brincando de pipa com o neto, o único presente do seu dia de aniversário. Ou na crueza do capataz, dispensando cortadores por “não renderem”, virando-lhes as costas.

Pobre América Latina. Citando Eduardo Galeano, a pobreza antes era considerada obra de injustiça. O mundo moderno considera a pobreza incapacidade.

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Belo filme, recomendadíssimo. Premiado com a Caméra d´or no festival de Cannes de 2015.

FICHA TÉCNICA

Data de lançamento: 17 de dezembro de 2015 (Brasil)

Direção e Roteiro: César Augusto Acevedo

Fotografia: Mateo Guzmán

País:      Colombia

Ano       2015

Gênero                Drama

Duração               97 minutos

Idioma(s)            Espanhol

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Voltando….

LAERTE-04-05-10

Escrever é uma arte sinuosa. Você senta, há uma ideia e precisa desenvolvê-la. O início é um tanto difuso, as palavras não se encaixam, a tecla delete é pressionada inúmeras vezes, você olha para a janela buscando inspiração, quem sabe o espírito de Machado de Assis vem e o post sai em cinco minutos. As frases são finalmente escritas, mas é preciso revisá-las; e o texto completo precisa ser coeso, sem pontas soltas, de modo que a ideia tenha sido – pelo menos razoavelmente – transmitida. E, se alguma reflexão foi causada no eventual leitor, o objetivo é bem sucedido e temos um post decente.

Um dos grandes incentivos em manter um blog no ar é exatamente a arte de exercitar a escrita. Não sendo um blog profissional, há talvez aquela falta de disciplina que temos que ter em nossos empregos: escrevemos quando o tempo permite, e a inspiração tem que estar presente, para que o post seja bem desenvolvido e o resultado aceitável.

A escolha do tema é importante: por vezes, o assunto sobre o qual gostaríamos de escrever não é relevante para outras pessoas; um livro ou filme que muito me influenciou, me tocou, pode nada significar para elas.

Ou não. Escrevemos somente sobre os assuntos de que gostamos, e aí o leitor com o mesmo interesse ou afinidade naturalmente vem, volta e meia interagindo, enriquecendo a discussão e o blog.

Escrever é provocar. E se nem sempre a provocação vem acompanhada de bom conteúdo, pelo menos não passa batido, causa uma reação que pode ser até um breve menear da cabeça, ou então um belo xingamento (“como esse cara escreve merda!”), ou, aleluia, a consagração do missivista (“é exatamente isso que eu penso!”). A passividade do leitor é o pior inimigo do escritor.

Manter um blog no ar não é fácil. Mas aqui estamos, firmes, não muito disciplinados, mas motivados, com tesão de seguir em frente.

Longa vida ao Fora da Zona Verde.

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