Número Zero, Umberto Eco

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Até parece que Umberto Eco, grande intelectual italiano falecido recentemente, viveu no Brasil no último ano. Acho que nunca havia lido um romance tão antenado com o momento atual.

O autor é bem conhecido pelo seu (excelente) romance O Nome da Rosa, que teve uma adaptação para o cinema muito bem realizada – porém muito menos erudita que o livro – em 1986, dirigida por Jean Jacques Annaud e estrelada por Sean Connery e um jovem Christian Slater. Mas Umberto Eco foi muito mais: foi um acadêmico de muito prestígio no campo da semiologia e da filosofia medieval e os seus romances invariavelmente trazem uma erudição muito acima da média, sendo alguns realmente  difíceis de enfrentar, porém muito prazerosos se você chega até o final.

Pouco tempo antes de morrer causou polêmica ao afirmar que “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis” . Sem dúvida, uma sopa de verdade com uma pitada de arrogância.

Nestes tempos bicudos, encontrei um ensaio dele sobre o fascismo que vale muito a pena ler, caso você se interesse por política e movimentos de massa.

Mas voltemos ao Número Zero.

Itália, 1992, início da operação Mãos Limpas. Um certo Comendador Vimercate, empresário com negócios que vão desde casas de repouso, hotéis e algumas televisões regionais, quer ser aceito no “clube  de elite” dos maiores da Itália. Propõe-se, então, fundar um novo diário, Amanhã, “disposto a dizer a verdade sobre todas as coisas”. Este diário teria pelo menos dez exemplares pilotos, e na verdade, não se sabe se ele realmente será lançado ou então utilizado apenas como moeda de pressão sobre a elite que o Comendador quer pertencer. Uma pequena equipe de repórteres e redatores é contratada para tocar o projeto.

Há uma anedota que diz que se as pessoas soubessem como são fabricadas as salsichas nunca mais as comeriam. Pois bem, Umberto Eco nos descreve, pela pena do protagonista do livro, como são fabricadas, manipuladas, distorcidas as notícias segundo a única lógica do interesse do editor, que é o dono do jornal. “Não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal é que faz as notícias” é uma das frases que se destacam no romance. Sobre técnicas de desmentidos, já que “…era preciso inventar algumas cartas de leitores seguidas de nossos desmentidos”. Sobra até para o horóscopo, pois se deve publicar somente “prognósticos otimistas” e “previsões que sirvam para todos”.

Se algum estudante que quer fazer Jornalismo ler este romance antes do vestibular muda sua opção para Geologia ou Matemática, sem dúvida nenhuma.

Interessante que o romance é fartamente baseado em casos reais, a operação Gladio realmente existiu e o documentário da BBC citado no final do livro pode ser visto no YouTube (em inglês).

Vale lembrar que a fina ironia é uma marca do autor e está presente em todo o livro, e também que o enredo do romance é fundamentalmente italiano, contendo algumas passagens longas que por exemplo, versam sobre a morte de Mussolini, podendo ser cansativas mas que se encaixam quando se chega ao final do livro.

Enfim, Número Zero é um ótimo romance, escrito por um italiano e ambientado em Milão, mas que poderia perfeitamente ter se inspirado na grande mídia brasileira. No seu último romance, Umberto Eco mostra que foi atual até o final da sua grande vida.

  • Número Zero

  • Autor: Umberto Eco

    Tradutor: Ivone Benedetti

    EAN: 9788501104670

    Gênero: Romance estrangeiro

    Páginas: 208

    Editora: Record

    Preço: R$ 37,90

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