Duas lições sobre o impeachment

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Tirei duas lições desse início de processo de impeachment. Primeiro, que fui ingênua ao pensar que não poderia mais haver nenhum tipo de derrubada de governo no Brasil. Acreditava que nossas “instituições eram sólidas” (claro indício de manipulação ouvir tantas vezes a mesma coisa), que o país tinha uma imprensa livre e crítica capaz de zelar pela democracia e que o Brasil não poderia ser comparado a países como Paraguai ou Honduras. Obviamente estava errada.

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Segundo, descobri quão é fácil manipular as pessoas, que claramente o desejo incontrolável de “fazer ou mudar algo”é nutrido dia-a-dia por aqueles que detém o poder de formar opiniões. Esse mesmo desejo plantado leva as pessoas a não aceitarem outros pontos de vista e acabam se tornando intolerantes. Pensava que somente nos rincões pobres existiam pessoas que por falta de escolaridade e por viverem na miséria fossem vulneráveis às manipulações exercidas pelos “coronéis”, pelos poderosos, pelos aristocratas (ingenuidade, falta de conhecimento e preconceito da minha parte).

Agora entendo que a educação formal não é suficiente para libertar as pessoas, que a educação em si não livra o ser humano de ser manipulado e usado conforme os interesses alheios. Agora entendo que somente uma educação critica, a mesma defendida por Paulo Freire pode combater o mal do poder, da ganância e a vontade de manter tudo como está.

Só enxerguei isso depois de ver pessoas com boa escolaridade, pessoas que tiveram oportunidades na vida, que tiveram escolhas, a bradarem uma ideia repetidamente, sem argumentos, sem pensar nas consequências  e sem tentar entender os propósitos dos sujeitos envolvidos nesse episódio. Depois de tudo, sempre lembro as palavras de um professor que tive na pós-graduação, onde fui apresentada a pensadores críticos, “Desconfie de tudo”.

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Em relação ao processo de impeachment, em vez de tagarelar “Fora Dilma” ou “Não vai ter golpe”, prefiro buscar nos livros, na História e ouvir as pessoas sensatas que participaram ativamente desse período sombrio do Brasil, como Caetano Veloso em resposta a uma participante do programa Altas Horas.

Sbre Eanne

David Bowie: The man who sold the world

the man who sold the world

Vamos lembrar David Bowie, este artista genial falecido em 10 de Janeiro deste ano. Estávamos em Bruxelas e foi muito bacana presenciar uma bonita homenagem a ele na Grand Place (Grote Markt) no dia seguinte da sua morte. A canção se chama The man who sold the world (O homem que vendeu o mundo) e foi gravada originalmente em 1970. O Nirvana a regravou depois no seu disco MTV Unplugged.

Acho que essa letra se encaixa muito bem no dia de hoje.

The Man Who Sold The World (O Homem que vendeu o mundo)

We passed upon the stair (Nós passamos pelo degrau)
We spoke of was and when (Nós falamos do que foi e quando)
Although I wasn’t there (Embora eu não estivesse lá)
He said I was his friend (Ele disse que eu era seu amigo)
Which came as some surprise (O que veio como uma surpresa)
I spoke into his eyes: I thought you died alone (Eu falei direto nos seus olhos: eu pensei que você tivesse morrido sozinho)
A long long time ago (A muito, muito tempo atrás)

Oh no, not me (Oh, não, não eu)
I never lost control (Eu nunca perdi o controle)
You’re face to face (Você está face a face)
With the man who sold the world (Com o homem que vendeu o mundo)

I laughed and shook his hand (Eu ri e apertei a sua mão)
And made my way back home (E fiz meu caminho de volta pra casa)
I searched for form and land (Eu procurei por forma e lar)
For years and years I roamed (por anos e anos eu perambulei)
I gazed a gazeless stare, at all the millions here (Eu contemplava com um vazio olhar à todos os milhões aqui)
We must have died alone (Nós devíamos ter morrido sozinhos)
A long long time ago (A muito, muito tempo atrás)

Who knows? Not me (Quem sabe? eu não)
We never lost control (Nós nunca perdemos o controle)
You’re face to face (Você está face a face)
With the man who sold the world (Com o homem que vendeu o mundo)

O original com o David Bowie pode ser visto aqui.

A versão do Nirvana aqui.

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A versão

Número Zero, Umberto Eco

Até parece que Umberto Eco, grande intelectual italiano falecido recentemente, viveu no Brasil no último ano. Acho que nunca havia lido um romance tão antenado com o momento atual.

O autor é bem conhecido pelo seu (excelente) romance O Nome da Rosa, que teve uma adaptação para o cinema muito bem realizada – porém muito menos erudita que o livro – em 1986, dirigida por Jean Jacques Annaud e estrelada por Sean Connery e um jovem Christian Slater. Mas Umberto Eco foi muito mais: foi um acadêmico de muito prestígio no campo da semiologia e da filosofia medieval e os seus romances invariavelmente trazem uma erudição muito acima da média, sendo alguns realmente  difíceis de enfrentar, porém muito prazerosos se você chega até o final.

Pouco tempo antes de morrer causou polêmica ao afirmar que “As redes sociais dão o direito de falar a uma legião de idiotas que antes só falavam em um bar depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a humanidade. Então, eram rapidamente silenciados, mas, agora, têm o mesmo direito de falar que um prêmio Nobel. É a invasão dos imbecis” . Sem dúvida, uma sopa de verdade com uma pitada de arrogância.

Nestes tempos bicudos, encontrei um ensaio dele sobre o fascismo que vale muito a pena ler, caso você se interesse por política e movimentos de massa.

Mas voltemos ao Número Zero.

Itália, 1992, início da operação Mãos Limpas. Um certo Comendador Vimercate, empresário com negócios que vão desde casas de repouso, hotéis e algumas televisões regionais, quer ser aceito no “clube  de elite” dos maiores da Itália. Propõe-se, então, fundar um novo diário, Amanhã, “disposto a dizer a verdade sobre todas as coisas”. Este diário teria pelo menos dez exemplares pilotos, e na verdade, não se sabe se ele realmente será lançado ou então utilizado apenas como moeda de pressão sobre a elite que o Comendador quer pertencer. Uma pequena equipe de repórteres e redatores é contratada para tocar o projeto.

Há uma anedota que diz que se as pessoas soubessem como são fabricadas as salsichas nunca mais as comeriam. Pois bem, Umberto Eco nos descreve, pela pena do protagonista do livro, como são fabricadas, manipuladas, distorcidas as notícias segundo a única lógica do interesse do editor, que é o dono do jornal. “Não são as notícias que fazem o jornal, mas o jornal é que faz as notícias” é uma das frases que se destacam no romance. Sobre técnicas de desmentidos, já que “…era preciso inventar algumas cartas de leitores seguidas de nossos desmentidos”. Sobra até para o horóscopo, pois se deve publicar somente “prognósticos otimistas” e “previsões que sirvam para todos”.

Se algum estudante que quer fazer Jornalismo ler este romance antes do vestibular muda sua opção para Geologia ou Matemática, sem dúvida nenhuma.

Interessante que o romance é fartamente baseado em casos reais, a operação Gladio realmente existiu e o documentário da BBC citado no final do livro pode ser visto no YouTube (em inglês).

Vale lembrar que a fina ironia é uma marca do autor e está presente em todo o livro, e também que o enredo do romance é fundamentalmente italiano, contendo algumas passagens longas que por exemplo, versam sobre a morte de Mussolini, podendo ser cansativas mas que se encaixam quando se chega ao final do livro.

Enfim, Número Zero é um ótimo romance, escrito por um italiano e ambientado em Milão, mas que poderia perfeitamente ter se inspirado na grande mídia brasileira. No seu último romance, Umberto Eco mostra que foi atual até o final da sua grande vida.

  • Número Zero

  • Autor: Umberto Eco

    Tradutor: Ivone Benedetti

    EAN: 9788501104670

    Gênero: Romance estrangeiro

    Páginas: 208

    Editora: Record

    Preço: R$ 37,90

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Violência

Da Violência

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem

(Bertold Brecht)

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Goya, Saturno devorando a su hijo

Briga de torcidas neste final de semana: um morto e outra pessoa na UTI.

Na Avenida Paulista, milícias acampadas em frente ao maior sindicato patronal do Brasil espancam pessoas que se vestem de vermelho.

Uma ensandecida professora de direito da USP invoca Deus para enviar legiões para matar a cobra, ou o que ela representa.

Fatos dispersos, aparentemente desconexos, porém intrinsecamente ligados.

Segundo o mapa da violência de 2015, citado em reportagem do jornal El País, o número de pessoas brancas mortas por arma de fogo caiu 23% entre 2003 e 2012 (de 14,5 mortes por 100.000 habitantes para 11,8), a quantidade de vítimas negras aumentou 14,1% no mesmo período: de 24,9 para 28,5. Apenas em 2012 morreram 2,5 mais negros do que brancos (grifos meus).

O Brasil está em 11º no ranking de taxas de homicídio no mundo.

Mas o país não aceita este resultado. Precisamos melhorar este número, pelo menos chegar e permanecer entre os cinco maiores.

Precisamos de mais violência, precisamos mostrar ao mundo quem realmente somos. País com forte herança escravocrata enraizada até a medula na sociedade, país sem nenhum prêmio Nobel, onde estudante e professor são tratados na porrada, violento desde os primórdios.

Violência, violência, violência.

Nós chegaremos lá, estamos trabalhando com afinco e determinação.

Em nome do Pai, da Família e da Pátria.

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Carteira de habilitação para quem vai dirigir no exterior

A carteira de habilitação para quem pretende viajar para o exterior chamada de Permissão Internacional para Dirigir (PID) não é obrigatória para quem vai passar até 180 dias em outro país. Entretanto, ela é aceita em mais de 130 países e pode ser útil no caso de um acidente ou infrações mais graves. O condutor que possui o documento pode escapar de constrangimentos e burocracias dos agentes rodoviários. Imagina numa situação difícil na Turquia, por exemplo, você ter que explicar para o agente da lei que a sua carteira de habilitação brasileira é o documento apresentado. Caso um policial exigir a habilitação, as informações em alemão, árabe, chinês, espanhol, francês, inglês, português e russo irão facilitar a leitura dos dados do condutor pelo agente e a liberação do veículo.

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O mais importante é consultar antes se o país que vai ser visitado aceita a carteira nacional de habilitação ou o PID.

Para tirar o PID é fácil: basta ter a habilitação com foto em situação regular (nem suspensa, nem cassada); no prazo de validade, ser emitida pelo Detran de São Pualo e não estar em processo de mudança de categoria. Também dá para solicitar pelo site do Detran. A taxa é de R$ 259,05 e demora até 5 dias uteis.

Sbre Eanne