Spotlight

Nenhum comentário

Spotlight, o filme ganhador do prêmio de melhor filme do Oscar 2016, é um retrato de um jornalismo que quase não mais existe. O excelente filme do diretor Tom McCarthy mostra o dia a dia da equipe Spotlight, um pequeno grupo de repórteres do diário The Boston Globe, que trabalha meses para desvendar vários casos de pedofilia ocorridos na Igreja Católica, envolvendo padres e cardeais. Embora não haja nenhuma cena particularmente chocante, os crimes são escabrosos,  abusos sexuais em crianças de cinco, seis anos. A apuração dos fatos e o longo trabalho dos repórteres não foram fáceis, esbarrando na alta hierarquia da igreja e no silêncio e conivência da sociedade bostoniana.

O filme também merecidamente ganhou o Oscar de melhor roteiro original. O elenco está excelente, com Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Leiv Schreiber e outros. Hollywood faz de tempos em tempos ótimos filmes sobre jornalismo investigativo, desde o clássico Todos os Homens do Presidente de 1976, sobre o caso Watergate, com Robert Redford e Dustin Hoffman com direção de Alan Pakula e também O Informante (The Insider, no original) de 1999, do grande Michael Mann, com Russell Crowe no papel de um ex-cientista da indústria de cigarro e Al Pacino, no papel do repórter que o convence a contar a história. Mais recentemente, o livro reportagem de Roberto Saviano, Gomorra, sobre as máfias italianas, foi muito bem adaptado para o cinema, sob a direção de Matteo Garrone.

Mas hoje o mundo mudou e a revolução causada pela internet faz com que a informação tenha que ser rapidamente digerida tal como uma comida fast food, e onde o tempo de reflexão da notícia é muito pequeno ou quase zero, pois uma notícia logo precisa ser substituída por outra, e este processo não permite que uma equipe como a Spotlight fique meses  apurando e investigando um só assunto.

Mas acho que o caráter do jornalismo também mudou, e para pior. Tomemos por exemplo o caso do ex-deputado Carli Filho que dirigindo bêbado em altíssima velocidade, matou duas pessoas em Curitiba. O jornalismo investigativo foi patronalmente censurado, como pode ser visto aqui.

Devo muito do meu hábito de leitura aos jornais e revistas. Quando criança e adolescente, influenciado pelo meu pai e tio, lia todas as manhãs o extinto Jornal da Tarde, do grupo Estado, e na época da universidade a Folha de S. Paulo, que assinávamos em casa. Até mais ou menos o início da década de 9o também lia a Veja (confesso!!), antes de ela se tornar este lixo que é hoje.

Muito tristemente, hoje vejo que a imprensa brasileira escrita e televisiva é uma porcaria. Não entendo como alguém ainda pode levar a sério o Jornal Nacional,  cujas   reportagens fariam uma toupeira com Alzheimer se envergonhar.

São cada vez mais raros grandes jornalistas na assim chamada grande mídia, como por exemplo  Janio de Freitas na Folha de S. Paulo (escreve aos domingos e quintas), Jamil Chade no Estadão e Caco Barcellos na TV Globo.

O futuro realmente está na internet e excelentes exemplos de jornalismo investigativo, que dá trabalho e requer paciência, podem ser vistos aqui ou ali ou acolá, como neste caso da mansão de Parati que seria de propriedade da família Marinho da Rede Globo.

Spotlight é um grande filme, sendo um réquiem para um jornalismo cada vez mais raro.

sobre parma

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s