Filme: The lost honour of Christopher Jefferies

O filme lançado pela Netflix conta a história real do assassinato da jovem Joanna Yeates, então moradora e inquilina do “esquisito”  Christopher Jefferies, um professor universitário aposentado, que é preso suspeito pela morte da garota. Enquanto segue as investigações, Christopher tem sua vida devassada pela imprensa, que diante um sensacionalismo sem limite inventa várias histórias sobre o professor e acaba com sua reputação. Tudo isso acontece principalmente pela extravagante aparência do acusado, que possui hábitos peculiares e acaba sendo um sujeito fora do padrão que a sociedade cria.

O filme é bem interessante até pelo fato de ser uma história real. O ator Jason Watkin interpreta muito bem um homem de meia idade cheio de trejeitos e que é lembrado pelos colegas como uma pessoa correta.

A história é um exemplo de como uma pessoa pode se tornar alvo de julgamentos alheios por se apresentar de forma “diferente” do habitual. Vivemos numa sociedade cheia de estereótipos e quando alguém não se “encaixa” em nenhum deles, pode sofrer preconceitos e acusações inimagináveis. Também é destaque a “fome” da imprensa em produzir histórias sensacionalistas sem a preocupação com as pessoas envolvidas, só se importando em vender exemplares.

Sbre Eanne

 

O legado das sombras

escravos nas manifestações

Hoje, mais uma vez, haverão várias manifestações pelo país. Protestarão contra a corrupção, a roubalheira na Petrobrás, vários clamarão pela volta do regime militar. Claro, pedirão o impeachment da presidente Dilma Rousseff, a prisão do ex-presidente Lula e se possível o extermínio de todo petralha ou qualquer um que ouse se declarar de esquerda no país. Muito provavelmente, o estrato social dos manifestantes será o mesmo que o insuspeito Datafolha publicou em Agosto do ano passado: 70% maiores de 35 anos, 75% brancos, 76 % possuem curso superior, e 85,6% com renda maior que R$ 2364,00 por mês (72,3% acima de R$ 3.940,00 por mês).

Moema ou Capão Redondo?

Uma boa pista é pesquisar quem e quais são as entidades que organizam ou apoiam estes movimentos. FIESP, Globo, Folha e Estado de S. Paulo; Instituto Millenium, Movimento Brasil Livre, Vem pra Rua e outros. Curiosa a origem de cada uma destas organizações; Por exemplo,  o perfil de Rogerio Chequer, o criador e líder do Vem pra Rua, relata que ele passou parte de sua vida nos Estados Unidos, e aparentemente há ou houve um processo contra ele, relativo a litígios de ordem financeira. Do nada, ressurge  no Brasil como o paladino da democracia e livre mercado. Na página do Instituto Millenium, aba “quem somos”, há a relação dos fundadores e curadores e mantenedores, onde não fica dúvida nenhuma para que ele veio e o que ele defende.

Higienópolis ou Sapopemba?

Na manifestação de hoje alguns políticos já se manifestaram: segundo o portal IG, “Alckmin e Aécio irão juntos a protesto pelo impeachment da Dilma em São Paulo”. Bolsonaro , também. O Estadão publica que ” Os senadores Ronaldo Caiado (DEM-GO), Aloysio Nunes (PSDB-SP), José Serra (PSDB-SP) e os deputados Mendonça Filho (DEM-PE), Carlos Sampaio (PSDB-SP), Paulinho da Força (SDD-SP), e Antonio Imbassahy, líder do PSDB na Câmara, estarão presentes.”

Quem ou o quê estes caras representam?

A presidente Dilma Rousseff é uma péssima gestora, uma política desastrada e uma oradora confusa. Sua eleição, sustentada com uma proposta de centro-esquerda, foi de alguma forma traída, pois suas políticas neoliberais – expressa na escolha do então Ministro Joaquim Levy – são totalmente contrárias a base social que a elegeu; estes sim, teriam toda a razão de sair as ruas e protestar. Sim, o PT infelizmente nada ou pouco fez, desde que ascendeu ao poder, a cortar a estrutura promíscua que existe entre governo e empreiteiras e fornecedores da Petrobrás, que existe desde o começo da República.

Mas o impeachment é um instrumento de golpe, patrocinado pelos mesmos atores de um evento não muito distante na história. Abaixo segue as manchetes do jornal O Globo e O Estado de S. Paulo no início de Abril de 1964, logo após a deposição do presidente legítimo João Goulart pelos militares:

O Globo, 02 de Abril de 1964: “Ressurge a Democracia!”

O Estado de S. Paulo, 02 de Abril de 1964: “Vitorioso o movimento democrático”

Dias antes, em 19 de Março de 1964, em São Paulo, foi realizada a Marcha da Família com Deus pela liberdade” onde os cartazes diziam, segundo reportagem:

“Entre os cartazes exibidos estavam os dizeres “Vermelho bom, só batom”, “Um, dois, três, Brizola no xadrez”, “Verde Amarelo, sem foice e sem martelo”, “Tá chegando a hora, de Jango ir embora”, “O Kremlin não compensa”, “Abaixo o entreguismo vermelho”, “A melhor reforma é o respeito à lei”, “Chega de palhaçada, queremos governo honesto”.

A partir daí, o país viveu 21 anos sob o legado das sombras.

Os atores são os mesmos. A classe média de São Paulo mais uma vez como um grande protagonista.

Não quero isso para a minha filha de 2 anos.

sobre parma

Spotlight

Spotlight, o filme ganhador do prêmio de melhor filme do Oscar 2016, é um retrato de um jornalismo que quase não mais existe. O excelente filme do diretor Tom McCarthy mostra o dia a dia da equipe Spotlight, um pequeno grupo de repórteres do diário The Boston Globe, que trabalha meses para desvendar vários casos de pedofilia ocorridos na Igreja Católica, envolvendo padres e cardeais. Embora não haja nenhuma cena particularmente chocante, os crimes são escabrosos,  abusos sexuais em crianças de cinco, seis anos. A apuração dos fatos e o longo trabalho dos repórteres não foram fáceis, esbarrando na alta hierarquia da igreja e no silêncio e conivência da sociedade bostoniana.

O filme também merecidamente ganhou o Oscar de melhor roteiro original. O elenco está excelente, com Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Leiv Schreiber e outros. Hollywood faz de tempos em tempos ótimos filmes sobre jornalismo investigativo, desde o clássico Todos os Homens do Presidente de 1976, sobre o caso Watergate, com Robert Redford e Dustin Hoffman com direção de Alan Pakula e também O Informante (The Insider, no original) de 1999, do grande Michael Mann, com Russell Crowe no papel de um ex-cientista da indústria de cigarro e Al Pacino, no papel do repórter que o convence a contar a história. Mais recentemente, o livro reportagem de Roberto Saviano, Gomorra, sobre as máfias italianas, foi muito bem adaptado para o cinema, sob a direção de Matteo Garrone.

Mas hoje o mundo mudou e a revolução causada pela internet faz com que a informação tenha que ser rapidamente digerida tal como uma comida fast food, e onde o tempo de reflexão da notícia é muito pequeno ou quase zero, pois uma notícia logo precisa ser substituída por outra, e este processo não permite que uma equipe como a Spotlight fique meses  apurando e investigando um só assunto.

Mas acho que o caráter do jornalismo também mudou, e para pior. Tomemos por exemplo o caso do ex-deputado Carli Filho que dirigindo bêbado em altíssima velocidade, matou duas pessoas em Curitiba. O jornalismo investigativo foi patronalmente censurado, como pode ser visto aqui.

Devo muito do meu hábito de leitura aos jornais e revistas. Quando criança e adolescente, influenciado pelo meu pai e tio, lia todas as manhãs o extinto Jornal da Tarde, do grupo Estado, e na época da universidade a Folha de S. Paulo, que assinávamos em casa. Até mais ou menos o início da década de 9o também lia a Veja (confesso!!), antes de ela se tornar este lixo que é hoje.

Muito tristemente, hoje vejo que a imprensa brasileira escrita e televisiva é uma porcaria. Não entendo como alguém ainda pode levar a sério o Jornal Nacional,  cujas   reportagens fariam uma toupeira com Alzheimer se envergonhar.

São cada vez mais raros grandes jornalistas na assim chamada grande mídia, como por exemplo  Janio de Freitas na Folha de S. Paulo (escreve aos domingos e quintas), Jamil Chade no Estadão e Caco Barcellos na TV Globo.

O futuro realmente está na internet e excelentes exemplos de jornalismo investigativo, que dá trabalho e requer paciência, podem ser vistos aqui ou ali ou acolá, como neste caso da mansão de Parati que seria de propriedade da família Marinho da Rede Globo.

Spotlight é um grande filme, sendo um réquiem para um jornalismo cada vez mais raro.

sobre parma

Feliz Dia das Mulheres

Fiquei pensando se é válido mesmo ter um dia de comemoração para as mulheres já que os homens não ganharam tal privilégio. Se dentro das minhas possibilidades (digo isso, porque é difícil mudar o que já está enraizado na nossa vida) luto pela igualdade de gêneros, como já descrevi antes neste blog, por que apoiar este dia dedicado às mulheres?

mulheres-poderosas1 Maud Wagner, a primeira tatuadora dos Estados Unidos – 1907

Assim como os negros foram injustiçados no sentido de não terem as mesmas oportunidades que os brancos, as mulheres também sofreram e ainda sofrem a falta de igualdade em muitas áreas da sociedade. Elas padecem com o que já foi legitimado pela história e que é passado de geração para geração.

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Annette Kellerman, presa por indecência após usar esta roupa de banho em público – 1907
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Armênia de 106 anos protegia sua família com uma AK-47 – 1990

Por isso, o dia de hoje só vem reparar a cultura de inferioridade que foi imposta pelos homens e que muitas mulheres acreditam ser a verdade. Por isso, tudo que puder lembrar a desigualdade que existe entre homens e mulheres é bem vindo e deve ser comemorado.

Assisti a um curto filme muito interessante, onde é perguntado para várias meninas estudantes se elas conheciam mulheres que foram inventoras na história. Elas não sabiam responder… Abaixo algumas delas:

Sbre Eanne