Quando o crime controla o crime

Nenhum comentário

Há poucos dias, o governo de São Paulo anunciou, retumbantemente, que a taxa de homicídios no estado registrou a menor taxa em vinte anos, inclusive estando abaixo do número que a ONU considera a violência epidêmica. O esfuziante governador declarou que “…isso não é obra do acaso. É fruto de muita dedicação…”

É claro que a mídia, notadamente a Folha de S. Paulo, aquela do “rabo preso com o leitor”, manchetou – e corroborou – os dados oficiais.

alckmin_homicidios01_2015

À parte da estranhíssima e peculiar estatística por detrás destes números, ver aqui, uma reportagem recente da BBC Brasil me chamou a atenção.

Graham Denyer Willis é um pesquisador canadense, atualmente professor na prestigiosa Universidade de Cambridge.  Defendeu em 2013, no MIT americano, sua tese de doutorado cujo nome é “The Killing Consensus: Homicide Detectives, Police that Kill and Organized Crime in São Paulo, Brazil” (algo como o consenso da morte: detetives de homicídios, polícia que mata e o Crime Organizado em São Paulo Brazil). Recentemente lançado em livro, a sua tese pode ser baixada no site do MIT.

Graham passou bastante tempo na periferia de São Paulo estudando a relação e a regulação da violência urbana, convivendo com a polícia, a comunidade local e também com membros do PCC, o Primeiro Comando da Capital, organização criminosa formada nos presídios após o massacre ocorrido em 1992 no então presídio do Carandiru.

A sua tese principal, o de um “consenso da morte” desenvolvida após anos de trabalho desenvolvido na periferia de São Paulo, é, segundo suas palavras:

“…é evidente que o Estado não é unicamente responsável pela regulação da morte…” , “…eu argumento, em contraste, que o tema pode ser definido por consenso – neste caso entre dois poderes. Estes dois poderes não são antagônicos como podem parecer a primeira vista. Mais, eles são muitas vezes alinhados juntos, operando de uma maneira mutuamente benéfica. Sobre esta configuração, quem pode viver e quem pode morrer, e a relativa estabilidade desta visão como banal, dependem do encontro da moral dentre a) aqueles outorgados pelo Estado em regular a morte [polícia] – ou através de investigação ou no ato de matar e b) o sistema moral do PCC. Noções paralelas de morte legítima se juntam de tal maneira para definir e criar de fato um domínio de um pseudo estado sobre o direito de matar, na qual eu chamo de consenso da morte…”

A queda do número de homicídios registrado em São Paulo desde 1992, muito notadamente na periferia, em bairros como Jardim Ângela, Brasilândia e Sapopemba, não foi obra da polícia ou do estado, mas simplesmente uma regulação que o PCC faz nas áreas sob o seu comando. Afinal como diz um morador, “Eu moro na periferia e sei bem o que acontece quando você mata alguém sem a permissão do PCC”.

Um retrato disto é os acontecimentos que se seguiram na violenta e estúpida morte do menino boliviano Brayan de cinco anos de idade, assassinado cruelmente no colo da sua mãe simplesmente porque não parava de chorar, irritando os assaltantes que meteram uma bala na sua cabeça. 35 dias após o ocorrido, quatro dos cinco suspeitos foram mortos com padrão de execução (dois foram mortos a tiros e outros dois que estavam presos por ingestão forçada de “Gatorade”, mistura de creolina, cocaína, água e viagra). Segundo se noticiou, as ordens foram enviadas desde Presidente Vesceslau, onde estão reclusos a alta hierarquia do PCC.

A “justiça” foi decidida e executada segundo a moral e as regras do pseudo estado, ao largo da justiça oficial.

É o crime controlando o crime.

De onde alguém poderia argumentar que o estado já é um crime, e tanto faz se quem regula é o PCC ou a polícia, já que ambos são faces de uma mesma moeda.

Ou como disse Albert Camus, se o crime torna-se lei, deixa de ser crime.

angeli

sobre parma

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s