O Tribunal na internet

downloadhhA atriz Glória Pires foi a bola da vez nas redes sociais depois de ser escalada para comentar o Oscar na noite de domingo. Sim, bola da vez porque o que mais se vê na internet são notícias e memes sobre a péssima atuação da atriz comentando os indicados a estatueta.

Isso prova que o público não perdoa. Seja quem for, as pessoas agora tem voz para alardear seu descontentamento, apontar as falhas e exigir um produto de qualidade. E claro, sempre vai existir aqueles que levam ao extremo e acabam sendo grosseiros e ignorantes ao expressar suas opiniões.

Nesse episódio há dois fatos que chamam a atenção. Primeiro, que quem pagou o pato por estar no lugar errado foi a própria Glória Pires que obviamente não tem habilidade para fazer comentários sobre filmes e estava lá a convite de alguém. Provavelmente foi chamada por ser uma figura popular e querida pelo público. Ou seja, o diretor não teve a preocupação em oferecer um entretenimento de qualidade com informações relevantes sobre os filmes e atores do Oscar. O que acontece com frequência na Rede Globo.

Segundo, a atriz se viu obrigada a gravar um vídeo esclarecendo os fatos àqueles que manifestaram seus demônios diante o ocorrido, o que pessoalmente, achei desnecessário por se tratar de uma atriz renomada e talentosa que não tinha que se justificar pela incompetência da direção do programa, que a meu ver, subestima seu público.

Já a internet funciona assim: um dia ela engrandece e coloca a pessoa num pedestal. No outro, ela puxa o tapete e detona a figura dona de milhões de seguidores. Digo um dia, porque é exatamente o tempo que dura o julgamento. Amanhã ninguém mais lembra…

 

Sbre Eanne

Viva a democracia!

Para comemorar esta semana, faremos uma ode à democracia, essa moça tanto desejada, apregoada em todos os lados, seja de cima para baixo, da direita para a esquerda…enfim, nesta terra onde uma nefasta ditadura reinou durante 21 anos, sendo por ela substituída como uma esperança de uma sociedade melhor.

Devemos nos perguntar: é esta a democracia que precisamos para um mundo mais igual e humano? uma democracia altamente verticalizada, onde juiz é deus e delegado doutor?

Democracia sem horizontalidade é conversa para boi dormir.

Noam Chomsky, um dos maiores intelectuais vivos, nos fornece uma uma pequena aula sobre a questão. Veja aqui.

Mas, enquanto isso, celebremos a democracia, nas charges de vários artistas geniais.

Viva! Viva!

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Menino de 2 anos é acusado de bruxo

Anja-Ringgren-Loven-Nigerian-boyUm vídeo que está circulando na internet de um garoto de 2 anos que foi abandonado pelos próprios pais que o acusam de ser um bruxo na Nigéria nos revelam muito mais que a miséria humana. Ele nos mostra a tal ponto pode chegar a ignorância daqueles que se veem “esquecidos” por instituições, deuses, governos, organizações e seja lá o que existir. É a completa falta de esperança.

As imagens falam por si.

Um menino Africano pequeno bebe suavemente água da garrafa. Ele está nu e magro, e os moradores riem dele.
No entanto, a dinamarquêsa Anja Anel Ramo Loven dá-lhe água e biscoitos antes que o garoto seja levado para o hospital.
As imagens, que nos últimos dias se espalharam através das mídias sociais para vários meios de comunicação dinamarqueses e agora chegam à imprensa estrangeira são comoventes.
– Meu maior desejo sempre foi o de gritar para os líderes mundiais, e agora eu gritei ao mundo, diz Anja Anel Ramo Loven.

Mais morto que vivo.
Anja Anel Ramo Loven fundou uma organização de ajuda privada na Nigéria, onde ela vive há três anos.
Lá ela se move para pequenas aldeias para resgatar as crianças que foram rejeitadas pelas famílias e comunidades, porque eles são acusados de serem bruxas crianças.
O documentário “Anja África”, que será mostrado no DR2 durante a primavera, segue o trabalho Anja Anel Ramo Act.
No documentário Anja Anel Ramo Loven fala sobre o menino que mais tarde ela daria o nome de “Esperança”.

– Isso acontece apenas em pequenas comunidades, onde a população é extremamente pobre, e onde há muita superstição, daí as crianças são acusadas de serem bruxas crianças, diz Anja Anel Ramo Loven que diz saber de crianças excluídas quase todos os dias.

É bom esclarecer que as crianças não são acusadas de bruxas pelos pais, mas sim pelos membros da aldeia em que vivem, que podem ser avós, vizinhos, tios ou o padre. É muito raro a acusação ser feita pelos pais. Uma vez que o pequenino é acusado de bruxo, não há mais volta. A única maneira de reverter é praticando um exorcismo, que custa muito caro. Muitas vezes as crianças são torturadas e mortas e os pais são obrigados a expulsá-los da vila.

O menino atualmente está no hospital, mas já tem assegurado uma vaga no orfanato gerenciado pela organização de Anja.

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Para quem quiser contribuir financeiramente pode pagar um valor mensal pelo pay-pal.

Site:http://dinnoedhjaelp.dk/dinnoedhjaelps-arbejde-i-nigeria/

Sbre Eanne

O papa apaixonado

Papa
Ai meu deus! Como é duro sofrer por amor!

E deu na insuspeita BBC: o papa João Paulo II, cujo papado durou 26 anos, de 1978 até 2005, teve uma relação “intensa” com uma mulher casada por mais de trinta anos. Segundo a reportagem, o então cardeal Karol Wojtila conheceu em 1973 Anna-Teresa Tymieniecka, mantendo desde então uma relação constante, com troca regular de cartas, até incluindo uma estadia do então cardeal na casa de campo da sua musa, nos Estados Unidos.

Papa e Tymieniecka Camping 1978
Karol e Anna-Teresa, curtindo a natureza, em um camping em 1978

Segue um trecho da reportagem:

Em uma carta de 10 de setembro de 1976, ele escreveu: “No ano passado já estava buscando uma resposta a essas palavras: ‘Eu pertenço a você’, e finalmente, antes de partir da Polônia, encontrei uma maneira, um escapulário. A dimensão na qual aceito e sinto você em todo lugar em todos os tipos de situações, quando você está perto e quando está distante.”

Após tornar-se papa, ele escreveu: “Estou escrevendo após o evento, para que a correspondência entre nós continue. Prometo que me lembrarei de tudo nesse novo estágio da minha jornada”.

Esse papa…..

(Ressalte-se que a BBC matreiramente escreve que “não há sugestão de que o papa tenha quebrado seu celibato”. Pausa para rir.)

João Paulo II foi um papa extremamente conservador, chefiando a Igreja Católica com mão de ferro. Teve relações próximas com a Opus Dei, uma facção de extrema direita da Igreja, canonizando seu fundador em 2002. Atacou sem tréguas a Teologia da Libertação, corrente ligada a movimentos sociais e os mais pobres. Para maiores detalhes do seu legado, clique aqui.

Mas voltemos aos amores papais.

Não me conformo que, em pleno século XXI, a Igreja ainda seja capaz de negar a sexualidade inata de todo ser humano. Em graus diferentes, todos nós, temos nossos impulsos e desejos sexuais. A questão do celibato na Igreja Católica é de uma estupidez e um reacionarismo astronômico. O ótimo filme Spotlight, baseado em fatos reais, candidato ao Oscar 2016, retrata um pouco esta questão e o que dela decorre, vale a pena assistir. Não nego que algumas pessoas vivam sem sexo sem ter grandes problemas com isso, mas isto é uma atitude individual; é muito diferente de recusar o sexo devido a uma doutrina imposta sabe-se lá por quem ou quando.

Para quem já leu o Evangelho segundo Jesus Cristo, do genial Saramago, a descrição literária da concepção de Jesus, pelos seus pais José e Maria, é linda e humana.

Mas terminemos este post como uma homenagem ao outrora lânguido Karol Wojtila, pois todo homem apaixonado merece compaixão, nestas letras do também genial Cartola que creio refletem bem a angústia do nosso sofrido personagem:

CARTOLA – AMOR PROIBIDO

Sabes que vou partir
Com os olhos razos d’água
E o coração ferido
Quando lembrar de ti
Me lembrarei também
Deste amor proibido
Fácil demais fui presa
Servi de pasto em tua mesa
Mas fiques certa que jamais
Terás o meu amor
Porque não tens pudor

Faço tudo para evitar o mal
Sou pelo mal perseguido
Só me faltava era esta
Fui trair meu grande amigo
Mas vou limpar a mente
Sei que errei, errei inocente.

sobre parma

A escola na infância

imagesHoje fiquei pensando no significado da escola na nossa vida. Tive uma reunião no colégio da minha filha de 2 anos, onde foi apresentado, entre outras coisas, o que as crianças fazem durante o período que estão em aula. Primeiro, elas sentam em roda e cantam ou conversam sobre o fim de semana, depois trabalham com pintura, desenho, massa de modelar, ouvem histórias e identificam o que é grande ou pequeno, o que é muito ou pouco, as cores, os números, as partes do corpo. Depois tomam o lanche e em seguida tiram uma soneca de descanso. Quando acordam vão para o tanque de areia, o playground, a piscina de bolinha…

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Imaginei que talvez essa seja a melhor fase da escola e infelizmente, talvez a que menos lembramos. Nessa fase as crianças não tem compromissos, nem tarefas, nem pressões de provas, vestibular, nem de faltas. O dever se resume a brincar.

Li um artigo do sociólogo Peter Ludwig Berger onde ele escreve: ” A biografia do indivíduo, desde o nascimento, é a história de suas relações com outras pessoas“. No ato de brincar a criança aprende a conviver em sociedade. São as primeiras regras colocadas fora do ambiente de casa. Emprestar um brinquedo, respeitar a vontade do outro em não emprestar, compartilhar o lanche, guardar a bagunça, fazer carinho no amigo, são os primeiros passos para a criança se encaixar numa sociedade com valores formados. Para Berger, ” o processo por meio do qual o indivíduo aprende a ser um membro da sociedade é designado pelo nome de socialização“. Então nada mais justo dizer que a escola para os pequeninos é a forma de praticar a socialização.

Já ouvi muito que era melhor esperar minha filha ficar mais velha para ir à escola, já que não é uma necessidade. Só que em casa, a criança só recebe as orientações dos pais e família, que muitas vezes são recheadas de gestos complacentes que são carregados de amor, de culpa, de angústias e por isso, na maioria das vezes não são imparciais. E muito pior, quando o filho é único e só tem contato com adultos.

Espero que o argumento da socialização possa ser forte o suficiente para os pais que estão em dúvida em colocar seus filhos na escola por volta dos 2 anos. É saudável tanto para a criança quanto para o adulto porque acredito que o filho deve explorar o mundo ao máximo, mesmo nos primeiros anos de vida, que serão os iniciais vivenciados na escola.

E para os pais que ficam com seus corações apertados é a oportunidade de mostrar aos filhos pouco a pouco que o mundo não se resume à casa deles e que com o passar do tempo é preciso encorajá-los a descobrir novas possibilidades que só irão torná-los mais fortes.

Fonte: Peter L. Berger e Brigitte Berger, “Socialização: como ser um membro da sociedade”

Sbre Eanne

Filme: O Regresso

Já li algumas críticas do filme O Regresso, do diretor que gosto muito Alejandro González Iñárritu e discordo daquelas que apontam o filme como uma invenção para ganhar o Oscar, quase que “moldado” com elementos existentes em ganhadores passados, como a redenção, o sofrimento e blablablá… O filme é entretenimento e diversão, assim como o cinema! Quando quero assistir a filmes “cabeça” escolho um com esse perfil.

O Regresso é aventura e drama. Concordo que houve uns “furos” no roteiro e diria que foram até grandes, mas a fotografia, a atuação do Leonardo Di Caprio como Hugh Glass foram excepcionais e não se pode menosprezar Alejandro Iñárritu que dirigiu “Biutiful”, “Amores Brutos”, “Babel” e o último vencedor do Oscar “Birdman” pela direção do filme.

Prefiro não enumerar as perguntas que ficam sem resposta na história real de um caçador de peles que é abandonado pelo seu grupo e consegue sobreviver as mais terríveis adversidades (melhor o leitor assistir com seus próprios olhos, e se assistiu, pode comentá-las!).

O filme realmente é bom, mas tenho minhas dúvidas se é para ganhar um Oscar. E quanto à interpretação de Leonardo Di Caprio, acho que ele está na mesma posição que Eddie Redmayne em 2015, quando o ator interpretou o físico Stephen Hawking no filme ” A teoria de tudo”. Uma caracterização perfeita que ajuda muito na interpretação.

vlcsnap-2016-02-14-11h26m58s508Na minha opinião Michael Keaton estava fantástico no papel de  Riggan Thomson e merecia o troféu. Acredito que seja muito mais difícil interpretar um personagem “normal”, sem roupas especiais, maquiagem, adornos, efeitos, do que um personagem que tenha esses recursos. Mas, enfim, para nós o que vale é a diversão!

Sbre Eanne

Quando o crime controla o crime

Há poucos dias, o governo de São Paulo anunciou, retumbantemente, que a taxa de homicídios no estado registrou a menor taxa em vinte anos, inclusive estando abaixo do número que a ONU considera a violência epidêmica. O esfuziante governador declarou que “…isso não é obra do acaso. É fruto de muita dedicação…”

É claro que a mídia, notadamente a Folha de S. Paulo, aquela do “rabo preso com o leitor”, manchetou – e corroborou – os dados oficiais.

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À parte da estranhíssima e peculiar estatística por detrás destes números, ver aqui, uma reportagem recente da BBC Brasil me chamou a atenção.

Graham Denyer Willis é um pesquisador canadense, atualmente professor na prestigiosa Universidade de Cambridge.  Defendeu em 2013, no MIT americano, sua tese de doutorado cujo nome é “The Killing Consensus: Homicide Detectives, Police that Kill and Organized Crime in São Paulo, Brazil” (algo como o consenso da morte: detetives de homicídios, polícia que mata e o Crime Organizado em São Paulo Brazil). Recentemente lançado em livro, a sua tese pode ser baixada no site do MIT.

Graham passou bastante tempo na periferia de São Paulo estudando a relação e a regulação da violência urbana, convivendo com a polícia, a comunidade local e também com membros do PCC, o Primeiro Comando da Capital, organização criminosa formada nos presídios após o massacre ocorrido em 1992 no então presídio do Carandiru.

A sua tese principal, o de um “consenso da morte” desenvolvida após anos de trabalho desenvolvido na periferia de São Paulo, é, segundo suas palavras:

“…é evidente que o Estado não é unicamente responsável pela regulação da morte…” , “…eu argumento, em contraste, que o tema pode ser definido por consenso – neste caso entre dois poderes. Estes dois poderes não são antagônicos como podem parecer a primeira vista. Mais, eles são muitas vezes alinhados juntos, operando de uma maneira mutuamente benéfica. Sobre esta configuração, quem pode viver e quem pode morrer, e a relativa estabilidade desta visão como banal, dependem do encontro da moral dentre a) aqueles outorgados pelo Estado em regular a morte [polícia] – ou através de investigação ou no ato de matar e b) o sistema moral do PCC. Noções paralelas de morte legítima se juntam de tal maneira para definir e criar de fato um domínio de um pseudo estado sobre o direito de matar, na qual eu chamo de consenso da morte…”

A queda do número de homicídios registrado em São Paulo desde 1992, muito notadamente na periferia, em bairros como Jardim Ângela, Brasilândia e Sapopemba, não foi obra da polícia ou do estado, mas simplesmente uma regulação que o PCC faz nas áreas sob o seu comando. Afinal como diz um morador, “Eu moro na periferia e sei bem o que acontece quando você mata alguém sem a permissão do PCC”.

Um retrato disto é os acontecimentos que se seguiram na violenta e estúpida morte do menino boliviano Brayan de cinco anos de idade, assassinado cruelmente no colo da sua mãe simplesmente porque não parava de chorar, irritando os assaltantes que meteram uma bala na sua cabeça. 35 dias após o ocorrido, quatro dos cinco suspeitos foram mortos com padrão de execução (dois foram mortos a tiros e outros dois que estavam presos por ingestão forçada de “Gatorade”, mistura de creolina, cocaína, água e viagra). Segundo se noticiou, as ordens foram enviadas desde Presidente Vesceslau, onde estão reclusos a alta hierarquia do PCC.

A “justiça” foi decidida e executada segundo a moral e as regras do pseudo estado, ao largo da justiça oficial.

É o crime controlando o crime.

De onde alguém poderia argumentar que o estado já é um crime, e tanto faz se quem regula é o PCC ou a polícia, já que ambos são faces de uma mesma moeda.

Ou como disse Albert Camus, se o crime torna-se lei, deixa de ser crime.

angeli

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