Cecilia Meireles: Balada das dez bailarinas no cassino – Poesia da Semana 46 – 2015

Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.

Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.

As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.

A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranquila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.

Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.

Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.

bailarina_triste

(Cecilia Meireles, Flor de Poemas, pág 153-154. 1983 Editora Nova Fronteira)

Charles Bukowski: Vacas na Aula de Arte (Cows in Art Class) – Poesia da Semana 45 – 2015

bom tempo
é como
boas mulheres –
não acontece sempre
e quando acontece
não dura para sempre.
um homem é
mais estável:
se ele é ruim
é mais provável
que continue assim,
ou se ele é bom
ele pode
se fixar,
mas a mulher
se modifica para sempre
pelos filhos
pela idade
pela dieta
pela conversação
pelo sexo
pela lua
por haver ou não haver sol
ou bom tempo.
uma mulher tem que ser ninada
para subsistir
pelo amor
onde um homem pode se tornar
mais forte
por ser odiado.

estou bebendo esta noite no Spangler’s
e me lembro das vacas
que pintei certa vez na aula de Arte
e pareciam bem
pareciam estar melhor do que tudo
ali. estou bebendo no Spangler’s
pensando em qual amar e qual
odiar, mas já não há regras:
amo e odeio somente
a mim mesmo –
os outros ficam além de mim
como laranjas caídas da mesa
e rolando para longe; é o que devo
decidir:

matar-me, ou
me amar?
qual é a traição?
de onde vem a informação?

livros… como vidro quebrado:
eu não limparia a bunda com eles
e está ficando
mais escuro, está vendo?

(bebemos aqui e falamos uns
com os outros e parecemos saber.)

pinte a vaca com as maiores
tetas
pinte a vaca com a maior
garupa.

o cara do balcão faz deslizar uma cerveja pra mim
e ela percorre o trajeto
como um corredor olímpico
e o alicate que é minha mão
segura, levanta o copo
dourado, plena tentação,
eu bebo
e fico ali
mau tempo para vacas
mas meu pincel está pronto
para atingir
o olho de palha da grama verde
a tristeza me recobre
e mando a cerveja goela abaixo
peço uma bebida forte
rápido
para adquirir a garra e o amor de
continuar.

(Tradução de Jorge Wanderley: Os 25 melhores poemas de Charles Bukowski. Bertrand Brasil 2003.)

Publicado originalmente em 1968 em:

Poems Written Before Jumping Out Of An 8 Story Window

O original pode ser visto aqui.