Uma crítica a Narcos

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Em 2006, o grande Clint Eastwood lançou dois filmes antológicos: Flags of Our Fathers (Conquista da Honra) e Letters from Iwo Jima (Cartas de Iwo Jima), ambos como tema Iwo Jima, uma das grandes batalhas da segunda grande guerra, ocorrida no início de 1945 no Pacífico. O primeiro filme é falado em inglês e conta a história do ponto de vista americano; o segundo é falado em japonês e conta a mesma história, mas os protagonistas e narradores são japoneses. Clint é um ferrenho conservador, mas sem dúvida um dos maiores diretores de cinema vivos (OK, não levo em conta a bobagem de Sniper Americano de 2014), que neste dueto exercitou com maestria a arte de contar uma história através de duas visões diferentes e por vezes antagônicas.

Quando o roteirista Chris Bancato e o diretor José Padilha fecharam o formato de Narcos foi decidido de que lado a história deveria ser contada.

Narcos é narrada em primeira pessoa através de Steve Murphy, agente da DEA (agência americana anti drogas) originalmente locado em Miami e que é transferido para a Colômbia para atuar na repressão do então crescente tráfico de cocaína para os Estados Unidos, no começo dos anos 90. Steve é fiel, incorruptível, altruísta (ele e a sua mulher chegam até a adotar um bebê cujos pais foram assassinados), humano (ajuda a acobertar uma guerrilheira comunista para que não seja capturada pela CIA) e muito astuto. Tem o caráter de Gandhi e a esperteza de 007, um tipo construído sob medida para o público americano. Seu maior desvio moral é na cena em que dá um tiro em um pneu após uma batida banal de trânsito sob o olhar incrédulo de sua mulher. Já seu parceiro latino Javier Peña, tem lá os seus desvios, frequenta a zona colombiana, faz acordos com informantes do tráfico, etc. Os colombianos? Alegres, dançantes, mas estúpidos e corruptos…só mesmo os gringos para dar um jeito.

Vale lembrar que esses dois agentes são reais e foram consultores da produção da série.

Já no primeiro capítulo, ficamos sabendo que após o golpe do Pinochet em 1973 os traficantes teriam sido expulsos e aniquilados do Chile, pois “às vezes, os vilões fazem coisas boas”. Até a BBC comprou esta idéia, mas parece que a realidade é outra. Segundo reportagem de Laura Capriglione, citando como fontes diretas o jornal inglês The Guardian e o espanhol El País, o serviço secreto chileno participou ativamente do tráfico através de suas embaixadas no exterior.

Mas deixemos de ser ranzinza e elogiemos o que a série tem de melhor: é muito bem filmada e dirigida, não se pode negar que o Padilha é muito competente. Wagner Moura, mesmo com toda a questão do sotaque, faz um bom trabalho – embora não seja da melhor safra do ator – na sua criação de Pablo Escobar como o monstro colombiano carrancudo. O resto do elenco está bem também, apenas o Boyd Holbrook, que é o agente Murphy,  destoa um pouco, com uma atuação meio canastrona.

Mas outro detalhe que me chamou a atenção foi uma cena copiar-colar do Tropa de Elite 1 de uma tortura feita com sacos plásticos. Só faltou o Wagner Moura dizer “põe na conta do papa”.

Não é uma série ruim, muito pelo contrário, ela flui muito bem e se assiste rapidamente todos os dez capítulos, que a Netflix disponibiliza tudo de uma vez.

A questão é que os produtores vendem o peixe de que a série é um retrato fiel da realidade – e espertamente as cenas reais que são inseridas ao longo dos capítulos reforçam a impressão de um semi documentário – quando é na verdade a versão muito bem realizada de um lado bem definido, um pouco do que a diretora picareta Kathryn Bigelow fez com A Hora Mais Escura.

Pois é Padilha, você fez o seu Conquista da Honra, falta agora filmar o seu Cartas de Iwo Jima.

Vamos esperar a segunda temporada.

Como refresco segue abaixo um vídeo do youtube com entrevistas do (real) Pablo Escobar.

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