Devoradores de Sombras

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A realidade, quase sempre, supera a ficção.

As vezes assistimos a um filme, ou então lemos uma livro e vamos dormir reconfortados, pois tudo não passou de uma fantasia.

Mas qualquer um que tenha lido um pouco da história da humanidade sabe que a violência, a exploração e o abuso são características presentes desde que o primeiro hominídeo deu as caras por aqui neste planeta.

Muito pessimista para uma sexta? Talvez, ou somente realista demais.

O jornalista inglês Richard Lloyd Parry relata em seu livro Devoradores de Sombras (tradução de Rogério Bettoni, Três Estrelas, 494 págs, 2015) a história de Lucie Blackman, uma bonita garota britânica de 21 anos de classe média que em 02 de Maio de 2000, vai para o Japão para trabalhar como hostess no bairro boêmio de Roppongi em Tóquio e que após quase dois meses, em 01 de Julho, desaparece em um encontro com um cliente misterioso, para nunca mais voltar.

Parry tem uma boa prosa e descreve todos os eventos que vão desde a chegada de Lucie ao Japão, o seu dia a dia como hostess – e o significa ser uma hostess -, o seu desaparecimento, a chegada do seu pai para pressionar as investigações, que incluíram até um encontro com o então primeiro ministro Tony Blair, a morosidade da polícia japonesa, e finalmente a captura do suspeito e o seu posterior julgamento, com todas as peculiaridades da justiça japonesa.

Como residente em Tóquio, Parry foi capaz de descrever a cultura japonesa e tudo o que é dela decorrente, com um olhar não de um viajante ocasional, mas sim como alguém que está imerso algum tempo na sociedade. O seu relato do bairro de Roppongi e alguns de seus bizarros personagens são um ponto de destaque do livro.

Voltando ao início do post, seria quase impossível criar em uma ficção, um personagem tão complexo e repugnante como Joji Obara, o algoz de Lucie e de outras garotas que tiveram a infelicidade de topar com ele nas noites de Tóquio.

Ao descrever na parte 4 do livro a origem de Joji Obara, Parry conta um pouco de um passado recente que talvez o Japão gostaria de esquecer: o seu imperialismo feroz com os seus vizinhos asiáticos. Embora nascido no Japão, Obara é filho de pais coreanos que emigraram na primeira metade do século passado – os chamados zainichi – e que sempre sofreram forte discriminação dentro da sociedade japonesa. Neste caldeirão foi criado o estranho personagem que mudou de nome várias vezes e que quase nunca se deixava fotografar.

O comportamento da família Blackman, especialmente do seu pai Tim, é interessante do ponto de vista do percurso e das escolhas morais feitas, sendo no entanto injusto e impossível julgá-las, para alguém externo à família.

Enfim um ótimo livro, muito bem escrito, de fácil e envolvente leitura.

Lucie Blackman
Lucie Blackman
Lucie Blackman no aeroporto de Tóquio, 03 de Maio de 2000
Lucie Blackman chegando ao Japão, aeroporto de Tóquio, 03 de Maio de 2000
Joji-Obara
Joji Obara em uma das suas raríssimas fotos.
3/14/01--Kanagawa, Japan The beach and cave (right) where the British Hostess Lucie Blackman was murdered in 2000. Behind are the condominiums where her accussed killer, Jojo Obara, lived. All photographs ©2003 Stuart Isett All rights reserved This image may not be reproduced without expressed written permission from Stuart Isett.
Caverna onde Lucie Blackman foi encontrada, e ao fundo apartamento onde ela e Joji Obara se encontraram.

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