Deus Branco (Fehér isten)

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Coloque em um liquidificador húngaro O Planeta dos Macacos, Espártaco e uma pitada de Marley e Eu.

O resultado é um surpreendente filme que é de certa forma, uma crônica dos tempos atuais.

Que eu me lembre, nunca havia visto um filme húngaro. Bom li o ótimo livro Budapeste do Chico Buarque e vi a sua excelente adaptação feita para o cinema, onde muitas das cenas são rodadas no país europeu. Mas definitivamente está longe de ser uma obra húngara de fato.

A Hungria é um país lindíssimo. Estive em Budapest duas vezes e na última estive em um museu que está entre os que mais me impressionaram, a casa do terror, assim batizada em alusão aos dois regimes ditatoriais que assolaram a Hungria no século passado, primeiro o nazismo e depois o estalinismo, na sua variante húngara. As salas foram criadas de forma a passar para o visitante o clima opressor e pesado dos regimes. A iluminação escura, a música de fundo realmente traz desconforto ao visitante. Há um vídeo que nunca me esquecerei, onde uma velhinha dá um depoimento dizendo que ela teve cinco ou seis filhos – não lembro exatamente – e que os nazistas os mataram todos, um a um, sobrando ela e o marido. Como alguém pode sobreviver depois disso é um mistério.

Atualmente, a Hungria é um dos países europeus que vêm registrando nos últimos anos um aumento crescente da extrema direita. Em uma reportagem recente da Deutsche Welle, é descrito que o partido extremista Jobbik está apenas três pontos atrás, segundo as recentes pesquisas, do partido Fidesz que é o partido que exerce o poder. Notar que o Fidesz já é um partido bem conservador. Nacionalismo, preconceito, baixo crescimento econômico, tudo isso é um caldo perfeito para movimentos de massa de extrema direita, mas é isto é tema para outro post.

Mas o que tudo isso tem a ver com o filme? O diretor do filme, Kornél Mundruczó, nasceu em 1975. Em uma recente entrevista, Mundruczó afirmou que filme reflete sobre a relação entre as maiorias, como estas criam as minorias e “… nós criamos nossos monstros, e nós os rotulamos como monstros,  cães de ruas, minorias ou o que você tiver…” e abre o filme citando uma frase do poeta austro-húngaro Rainer Maria Rilke: “tudo o que é terrível precisa do nosso amor”.

Basta lembrar que na Hungria há alguns anos atrás houve uma série de assassinatos a sangue frio praticados por extremistas de direita em pessoas da minoria cigana Roma.

Uma pequena sinopse do filme: uma adolescente Zsófia , filha de pais divorciados, de repente precisa passar uma temporada na casa do pai em razão de uma viagem de trabalho da mãe. O detalhe é que a filhota vem acompanhada do seu cão Hagen. Mas o cão não é aceito pelo pai, e pelos moradores do prédio onde ele vive. Há uma frase para mim emblemática do filme que é quando o síndico do pai vai reclamar sobre o cão e diz “É um cão de rua, de raça misturada, nenhuma raça húngara”. O cão é expulso da casa, solto nas ruas de Budapeste, é preso pela carrocinha, sequestrado por um qualquer e vendido a um amestrador, onde é barbaramente torturado, que instiga violência nele para ser um grande cão de briga. O Marley amoroso do começo do filme transforma-se numa besta sanguinária. Hagen se revolta, torna-se um líder entre os seus pares e incita uma revolução nas ruas de Budapeste procurando seus algozes. Ao se deparar novamente com Zsófia, a canidade – se nós temos humanidade por que os cães não teriam uma canidade? – se manifesta novamente, demonstrando afeto e respeito com alguém que sempre lhe deu atenção e amor.

Um grande achado, um grande filme, merecidamente ganhou o prêmio um certo Regard no festival de Cannes em 2014. Vale a pena ver.

Ficha Técnica

Título: White God (Fehér Isten)

Diretor: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kornél Mundruczó

Elenco: Zsófia Psotta, Sándor Zsoster, Lili Horváth, Gergeli Bánki

Produção: Proton Cinema, Pola Pandora Filmproduktions

Distribuição: Magnolia Pictures

Ano: 2014

País: Hungria, Alemanha

Trailer:

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