Os eventos de Agosto de 2015

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De um modo geral, melhor analisamos determinado evento tanto quanto dele nos distanciamos temporalmente. Assim a reflexão e a devida contextualização substituem as análises apressadas e o julgamento emocional e superficial. A este processo de maturação se constrói a História.

Daqui a uma década ou mais, creio que uma charge e uma crônica serão referência para uma avaliação dos tempos que vivemos.

Me refiro a charge da genial Laerte, publicada na Folha de S. Paulo e a crônica de Luis Fernando Veríssimo (LFV), que li no Estado de S. Paulo,  ambas publicadas em 20 de Agosto.

Um bocado de gente séria não gostou e entendo que alguém possa ter sinceramente ficado ofendido pela associação feita pela cartunista e pelo cronista.

Mas que é um retrato destes tempos, não tenho a menor dúvida.

As hordas desgovernadas que saíram para protestar foram estratificadas pelo insuspeito Datafolha, mas um vídeo que rolou na net, feita por um chileno no Rio de Janeiro na manifestação de 16 de Agosto ilustra o sanatório geral – que causaria inveja profunda em Charles Manson – do evento.

Encontrei na biblioteca de casa um livro chamado Fanatismo e movimentos de massa (no original The True Believer), que o sociólogo americano Eric Hoffer escreveu em 1951. Como retrato do seu tempo, o autor estava preocupado em entender como movimentos como o nazismo, o fascismo e o estalinismo soviético (o autor menciona também as religiões de modo geral) convenceu tanta gente – incluindo um bocado de gente séria – a fim de provocarem guerras e desgraças por quase todo o século XX.

Hoffer faz um apanhado de grupos sociais que segundo ele são mais frequentes em movimentos de massa: i) novos pobres, que “pulsam com o fermento da frustração”, e “oriundos de uma classe média arruinada [que] formaram o principal esteio do fascismo e do nazismo”; ii) desajustados; iii) os exageradamente egoístas; iv) ambiciosos diante de oportunidades ilimitadas; v) minorias; vi)entediados; vii) pecadores.

Em outra parte do livro, há uma frase de Rudolf Hess, um proeminente dirigente nazista que afirmou: “não procurem Hitler com seus cérebros; todos vocês os acharão com a força dos seus corações”.

E este é o ponto central, a ausência de reflexão crítica e a perda da racionalidade em detrimento das emoções, que em pessoas facilmente manipuláveis como Hoffer descreveu, podem levar a tragédias coletivas que incidem sobre toda a sociedade.

Como na Alemanha nazista, na Itália fascista e na União Soviética estalinista.

Como no Brasil em 1964.

É isso que a charge da Laerte e a crônica do LFV nos alertam hoje, e que espero que não sejam lembradas no futuro como prenúncio de tempos terríveis.

sobre parma

Dica soundtrack: Vitamina C – Can do filme Vício Inerente

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Realmente Vitamina C e Can são nomes muito estranhos para uma música e uma banda. Mas é isso mesmo. Vitamina C é o nome de uma música da banda alemã Can. Ela faz parte da trilha sonora do filme Inherent Vice (tradução para o português Vício Inerente) , lançado em 2014 pelo diretor  Paul Thomas Anderson e protagonizado pelo perfeito Joaquin Phoenix. A respeito do filme, não recomendaria a um amigo, pois tirando a atuação de Phoenix que sempre vale a pena conferir, o filme é confuso e a história nada empolgante. Resumindo: a história que se passa nos anos 70 tem como enredo um investigador particular viciado em drogas Larry “Doc” Sportello (Joaquin Phoenix) que investiga o desaparecimento de sua ex namorada. O filme é um pouco complexo e você precisa prestar bastante atenção para entender alguma coisa.

Já a música Vitamina C que passa nos minutos iniciais do filme numa cena com o próprio Phoenix é eletrizante. Apesar da letra ser horrível “Ei você, você está perdendo, você está perdendo, você está perdendo, você está perdendo sua vitamina C…”, o som e a batida são exatamente descritas como o rock da banda formada em Colônia, na Alemanha: psicodélico.

O can é uma banda experimental, estilo banda de garagem que teve início em 1968 com os integrantes:  Holger Czukay (bateria), David Johnson (flauta), Jaki Liebezeit (baterista),  Michael Karoli (guitarrista) e  Irmin Schmidt’s (pianista). O primeiro álbum da banda Monster Movie (1969) já definia o estilo musical da banda: sons tocados espontaneamente e dirigidos por ritmos repetitivos. Hoje em dia todos os integrantes ainda fazem performances como músicos ou colaboradores solos.

Sbre Eanne

Morro de São Paulo – Bahia

5 Razões para você conhecer Morro de São Paulo:

– Pequeno paraíso com lindas paisagens e a combinação praia e verde;

– Lugar tranquilo com praias pouco frequentadas, água do mar morna e clima quente;

– Boa infra-estrutura de hotéis e restaurantes dos mais variados tipos.

– Opções de hospedagem para todos os gostos e bolsos.

– Você não vai encontrar carros na ilha, ou seja, sem congestionamentos. O único tráfego será de pessoas tentando comprar um suco de rambutão nas inúmeras barracas de bebidas de frutas exóticas super decoradas e caprichosas.

Foto: acervo pessoal
Foto: acervo pessoal

Quando vou viajar procuro saber algumas informações sobre o local para tirar dúvidas do que levar (principalmente se você tem criança pequena), que passeios devo fazer, o que ver, etc. Mas algumas vezes não dá tempo de pesquisar, então o melhor é abrir a mente e descobrir in loco. Foi o que aconteceu em Morro de São Paulo. O melhor é que foi surpreendente…

Foto: Chegada na ilha
Foto: Chegada na ilha
Foto: acervo pessoal
Foto: acervo pessoal / chegada em Morro de São Paulo

Morro de São Paulo está localizado no arquipélago formado pelas ilhas: Tinharé, Cairu e Boipeba, região conhecida como Costa do Dendê.

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Você tem 3 alternativas a partir de Salvador de chegar na ilha:

* Catamarã: é o meio mais barato, mais demora por volta de 2:30 min. e também pode causar náuseas durante o trajeto;

* Lancha: a duração do trajeto é de 1:30 min.;

* Barco, van ou ônibus e lancha: você pode mesclar parte marítima com terrestre. São 40 min. de barco até Valência, mais 1:30 min. de van e mais 15 min. de lancha.

Morro de São Paulo tem dois lados: o lado mais simples chamado de Morro que fica a direita de quem chega na praça Aureliano e o lado mais sofisticado, próximo as praias, que são nomeadas como 1ª, 2ª, 3ª e 4ª.

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Foto: acervo pessoal / 3ª Praia
4ª praia
Foto: acervo  pessoal / 4ª praia

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A ilha é um daqueles lugares encantadores que fazem a gente querer voltar mais vezes. Os singelos pontos históricos, como a Igreja Nossa Senhora da Luz, o mirante e a Fonte Grande valem ser apreciados na estadia. O passeio em volta da ilha entre o mar e o rio do Inferno, tem paradas nas piscinas naturais Garapuá e Moreré. No meio do passeio pausa para um delicioso almoço na Praia da Cueira em Boipeba e depois uma caminhada pela Mata Atlântica e espécies nativas como o Dendê através de propriedades particulares (na verdade de um único sortudo proprietário italiano).

Foto: acervo pessoal / Rio do Inferno
Foto: acervo pessoal / Rio do Inferno
Foto: acervo pessoal / caminhada
Foto: acervo pessoal / caminhada
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Foto: acervo pessoal / Piscina natural Garapuá

A praia da Gamboa, famosa pelas rochas feitas de argila (muitos turistas cobrem o corpo), é tranquila e extremamente morna. Para chegar basta caminhar por cerca de 25 minutos do cais, passando por praias quase desertas e tranquilas, até Gamboa. O trajeto tem que ser feito pela manhã, por causa da maré que sobe a tarde.

Início Praia da Gamboa
Início Praia da Gamboa
Vista da Gamboa de barco
Vista da Gamboa de barco
Gamboa
Gamboa
Gamboa
Gamboa

Ficamos hospedados na Pousada do Sr. Werner, um típico alemão, que fala com dificuldade o português e que nos recebeu com muita atenção. A pousada Vila Bahia fica mais próxima a Gamboa, num lugar muito tranquilo, mas um pouco afastado das outras praias. O chalé era confortável e o destaque fica para a natureza com uma pequena floresta particular.

Área do breakfast com vista privilegiada para o mar
Área do breakfast com vista privilegiada para o mar
Quintal da Pousada Villa Bahia
Quintal da Pousada Villa Bahia
Sr. Werner, eu e Sofia
Sr. Werner, eu e Sofia / vista da Pousada
Vida noturna
Vida noturna

A noite em Morro de São Paulo também é maravilhosa…. Além do clima gostoso, quente e com uma leve brisa, só de você caminhar pela orla ouvindo o barulho do mar já é uma delícia… Prazeroso também é caminhar pela alameda vendo as lojas, curtir a praça, tomar um sorvete, isso depois de um belo jantar nos inúmeros restaurantes…Para quem gosta de balada há vários bares onde você pode ouvir uma boa música brasileira ou as boates cheias de jovens com muita energia.

Vida noturna
Vida noturna

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No restaurante italiano Vila Guaiamu, o cliente pode pedir para jantar na praia em plena luz da Lua.

Jantar a luz de velas
Jantar a luz de velas

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Sbre Eanne

Deus Branco (Fehér isten)

Coloque em um liquidificador húngaro O Planeta dos Macacos, Espártaco e uma pitada de Marley e Eu.

O resultado é um surpreendente filme que é de certa forma, uma crônica dos tempos atuais.

Que eu me lembre, nunca havia visto um filme húngaro. Bom li o ótimo livro Budapeste do Chico Buarque e vi a sua excelente adaptação feita para o cinema, onde muitas das cenas são rodadas no país europeu. Mas definitivamente está longe de ser uma obra húngara de fato.

A Hungria é um país lindíssimo. Estive em Budapest duas vezes e na última estive em um museu que está entre os que mais me impressionaram, a casa do terror, assim batizada em alusão aos dois regimes ditatoriais que assolaram a Hungria no século passado, primeiro o nazismo e depois o estalinismo, na sua variante húngara. As salas foram criadas de forma a passar para o visitante o clima opressor e pesado dos regimes. A iluminação escura, a música de fundo realmente traz desconforto ao visitante. Há um vídeo que nunca me esquecerei, onde uma velhinha dá um depoimento dizendo que ela teve cinco ou seis filhos – não lembro exatamente – e que os nazistas os mataram todos, um a um, sobrando ela e o marido. Como alguém pode sobreviver depois disso é um mistério.

Atualmente, a Hungria é um dos países europeus que vêm registrando nos últimos anos um aumento crescente da extrema direita. Em uma reportagem recente da Deutsche Welle, é descrito que o partido extremista Jobbik está apenas três pontos atrás, segundo as recentes pesquisas, do partido Fidesz que é o partido que exerce o poder. Notar que o Fidesz já é um partido bem conservador. Nacionalismo, preconceito, baixo crescimento econômico, tudo isso é um caldo perfeito para movimentos de massa de extrema direita, mas é isto é tema para outro post.

Mas o que tudo isso tem a ver com o filme? O diretor do filme, Kornél Mundruczó, nasceu em 1975. Em uma recente entrevista, Mundruczó afirmou que filme reflete sobre a relação entre as maiorias, como estas criam as minorias e “… nós criamos nossos monstros, e nós os rotulamos como monstros,  cães de ruas, minorias ou o que você tiver…” e abre o filme citando uma frase do poeta austro-húngaro Rainer Maria Rilke: “tudo o que é terrível precisa do nosso amor”.

Basta lembrar que na Hungria há alguns anos atrás houve uma série de assassinatos a sangue frio praticados por extremistas de direita em pessoas da minoria cigana Roma.

Uma pequena sinopse do filme: uma adolescente Zsófia , filha de pais divorciados, de repente precisa passar uma temporada na casa do pai em razão de uma viagem de trabalho da mãe. O detalhe é que a filhota vem acompanhada do seu cão Hagen. Mas o cão não é aceito pelo pai, e pelos moradores do prédio onde ele vive. Há uma frase para mim emblemática do filme que é quando o síndico do pai vai reclamar sobre o cão e diz “É um cão de rua, de raça misturada, nenhuma raça húngara”. O cão é expulso da casa, solto nas ruas de Budapeste, é preso pela carrocinha, sequestrado por um qualquer e vendido a um amestrador, onde é barbaramente torturado, que instiga violência nele para ser um grande cão de briga. O Marley amoroso do começo do filme transforma-se numa besta sanguinária. Hagen se revolta, torna-se um líder entre os seus pares e incita uma revolução nas ruas de Budapeste procurando seus algozes. Ao se deparar novamente com Zsófia, a canidade – se nós temos humanidade por que os cães não teriam uma canidade? – se manifesta novamente, demonstrando afeto e respeito com alguém que sempre lhe deu atenção e amor.

Um grande achado, um grande filme, merecidamente ganhou o prêmio um certo Regard no festival de Cannes em 2014. Vale a pena ver.

Ficha Técnica

Título: White God (Fehér Isten)

Diretor: Kornél Mundruczó

Roteiro: Kornél Mundruczó

Elenco: Zsófia Psotta, Sándor Zsoster, Lili Horváth, Gergeli Bánki

Produção: Proton Cinema, Pola Pandora Filmproduktions

Distribuição: Magnolia Pictures

Ano: 2014

País: Hungria, Alemanha

Trailer:

sobre parma

Filme: Hacker

Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth)
Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth)

Muitas vezes assisto um filme por causa de um ator que gosto ou de um diretor. É uma aposta que o longa vai fazer sucesso pelo talento do elenco ou pela criatividade que o diretor tem para contar uma história. Ouvi falar do filme Hacker, título original Blackhat, do talentosíssimo Michael Mann ( Miami Vice, Inimigos públicos, Colateral, O informante, O aviador) e logo me empolguei para assistir. Mas para minha frustração o filme não tem nada de original e acaba tendo aquela velha história do super hacker que está preso e é recrutado para achar um outro hacker perigoso. Como prêmio, o protagonista Nicholas Hathaway (Chris Hemsworth que atuou em Thor e Os Vingadores) tem sua pena de prisão perdoada pelo governo americano. O filme é cheio de clichês e a história não é nada empolgante. As cenas de ação (fracas, por sinal) acontecem depois de 40 minutos de filme. Além disso, os atores não conseguem se sobressair e o principal do filme, Chris Hemsworth, deixa claro porque só faz papéis de super-heróis. Uma pena que dentro de um currículo glorioso Michael Mann tenha deixado Hacker em sua lista.

Dica: soundtrack True Detective “Nevermind”

images vvvvSempre que assisto uma série ou um filme fico ligada nas músicas. A trilha sonora muitas vezes é um espetáculo a parte e dá uma maior emoção a história que está sendo contada. Neste post, indico o tema de abertura da série True Detective season 2 da HBO. A música é “Nevermind” do cantor canadense Leonard Cohen, que soa quase como um poema. Aliás o cantor começou a carreira como poeta e a própria canção da série foi escrita como uma poesia. Essa não foi a primeira vez que Leonard Cohen emprestou seu jeito peculiar de cantar para a indústria do entretenimento. Em 1971, Robert Altman usou três músicas de Leonard Cohen no filme faroeste Mc Cabe & Mrs. Miller. Seguindo o sucesso, a música I’m your Man foi tema de Christian Slater no filme “Pump up the Volume” – tradução “Um som diferente”. E no mais famoso “Assassinos por natureza”, a canção “The future” do álbum com o mesmo nome, de 1992, está entre as playlists do célebre filme. Em 1984 Cohen também apareceu na série Miami Vice como convidado. Agora, ele volta em True Detective com a mesma essência na voz suave e sussurrante, com uma das faixas do disco Popular Problems.



Sbre Eanne