Histórias de Ruanda

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gostariamos de informa lo que RUANDAÀs vezes associamos o termo História com eventos que aconteceram há muito tempo atrás, que estudamos em livros, imaginando como deve ter sido através de pinturas – um bom exemplo é o quadro A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David – ou então por filmes de época.  Algo distante no tempo. O que o jornalista Philip Gourevitch descreve no seu livro “Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias: histórias de Ruanda” (Companhia de Bolso, Tradução de José Geraldo Couto, 352 páginas, 1ª edição americana de 1998) são acontecimentos do ano de 1994. Isso mesmo: enquanto Romário brilhava na copa nos Estados Unidos ajudando a seleção canarinha se tornar tetracampeã, acontecia na África Central um dos episódios mais terríveis e indecentes – e olha que a concorrência é vasta – da nossa breve história da humanidade: o genocídio de Ruanda.

Não só pela barbaridade em si, este recente evento deveria ser muito mais estudado – e especialmente no Brasil atual – como um convite à reflexão, sobre as causas que o antecederam ; enfim, desvendar o ovo da serpente: a origem e a construção do discurso do ódio que levou ao massacre de quinhentas mil a um milhão de pessoas – as estatísticas variam – incluindo crianças, mulheres grávidas e anciãos, assassinadas em sua maioria por golpes de facão.

Gourevitch nos conta que os belgas, que colonizaram Ruanda por mais de cinquenta anos até sua independência em 1962, estabeleceram em 1933-34 um censo, emitindo carteiras de identidade étnicas entre os hutus (que eram grande maioria), os tutsi e a minoria twa. Isto não impedia casamentos  e relações cordiais entre os grupos,  porém “os belgas haviam feito da etnicidade o traço definidor da existência ruandesa” (pág 56). Eis o ovo da serpente.

Mas para que a serpente possa nascer é necessário que o ovo seja devidamente chocado, e uma excelente incubadora – senão a melhor – são os meios de comunicação de massa e aí saltamos até 1990, quando rebeldes vindo de Uganda invadiram o país com o objetivo de derrubar o presidente-ditador Juvenal Habyarimana, um Hutu, no poder desde 1973. E então de 1990 até 06 de Abril de 1994, quando o seu avião foi derrubado sob circunstâncias ainda não esclarecidas, houve uma sistemática e constante campanha de ódio através de rádios e jornais culpando os Tutsis por tudo de ruim que acontecia no país; é notório o documento “os dez mandamentos hutus” publicado no jornal Kangura onde se era especificado que qualquer homem Hutu que tenha relações com mulheres Tutsis era considerado traidor e que todos os postos chaves da sociedade ruandesa ser ocupados por Hutus. Uma rádio, chamada Radio Television Libre des Milles Collines, propagava mensagens de ódio contra os Tutsis quase que diariamente.

Nesse intervalo de quatro anos e com o apoio financeiro e militar do Ocidente, principalmente da França, ovo foi eficazmente chocado até que em 06 de Abril de 1994 ele se quebrou e a serpente finalmente foi libertada.

De 07 de Abril até meados de Julho de 1994 estima-se que foram dizimados entre quinhentos e um milhão de ruandeses, principalmente tutsis e também hutus contrários à ordem política vigente sob a total indiferença das nações unidas, da Europa e também dos Estados Unidos. Como Gourevitch escreve no prefácio, “foi o mais eficiente assassinato em massa desde os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki”.

Também, quem se importa com um país pequeno e pobre, sem muitas riquezas naturais, e além de tudo negros? “Ora, que se matem, são sociedades tribais sendo esta a sua natureza”.  A uma boa discussão do livro do Gourevitch é sobre os grupos de ajuda humanitários, cujos objetivos não são somente humanitários, que infestaram Ruanda após Julho de 1994, e não raras vezes explorando a miséria dos refugiados e protegendo os executores do genocídio.

Bom é melhor ler o livro e conferir a excelente narrativa do Gourevitch. Como pequenas falhas, a edição poderia ter um índice por assunto e também uma bibliografia para que o leitor interessado possa se aprofundar no assunto. Uma certa simpatia ao líder emergente da Ruanda pós genocídio, Paul Kagame, é também perceptível. Mas a internet está aí e  é possível encontrar outros grandes trabalhos como diferentes visões deste evento histórico. Uma outra grande narrativa (não li, apenas trechos) é a da americana já falecida Alison Des Forges, cuja obra Leave None to Tell the Story pode ser baixada aqui.

Brasil, Abril de 2015

Uma das grandes razões que este recente evento histórico merece ser estudado e compreendido, para que não seja mais repetido, é o entendimento de como a construção do ódio foi cultivada durante quatro anos na mídia ruandesa. A grande mídia brasileira, que sempre esteve ao lado dos donos do poder, vem propalando sistematicamente um discurso de ódio contra tudo o que ela considera nociva ao país. Ódio contra as esquerdas, preconceito contra negros, gays, nordestinos. Recentemente um jornalista (sic) do SBT vociferou em um vídeo que “todo depressivo é um frustrado e não é digno de pena”. Uma outra pseudo-jornalista há tempos atrás ao comentar uma notícia de um jovem negro espancado e amarrado a um poste disse que “a atitude dos vingadores é até compreensível”. Ao ler no livro sobre a Radio des Milles Collines e sua apologia ao genocídio não pude evitar de pensar na Rádio Jovem Pan AM de São Paulo e sua inacreditável fauna de apresentadores e comentaristas. O discurso do ódio está aí, e vamos esperar sentados pelo pior, da mesma maneira que Ruanda?

Por último segue um link para a primeira parte, de nove, de um documentário sobre o genocídio em Ruanda. Em inglês.

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