Um abraço sincero

Foto: acervo pessoal
Foto: acervo pessoal

Cheguei de Morro de São Paulo (um lugar lindo) e parei para pensar no que vi. Não foram só paisagens deslumbrantes, mas um abraço caloroso entre o guia que pilotava uma lancha num passeio e uma moça que preparava ostras num bar que flutuava no rio. Fiquei somente observando e percebi que eles eram amigos, que ficaram felizes por terem se encontrado, e por isso, deram um abraço descompromissado e verdadeiro. Eu senti. Daí parei para pensar quantas vezes num ano, que seja, fazemos o mesmo? Quantas vezes abraçamos um amigo ou um vizinho com a mesma sinceridade, vontade e prazer? Hoje, os amigos se acompanham pelo Facebook. Já ouvi muitas vezes: ” eu fico sabendo da sua vida pela rede social”. Pensando na cena dos amigos baianos, isso soa tão frio, tão distante e artificial. Claro, muitas pessoas devem pensar que no meio da correria do dia-a-dia, ver passar a vida dos amigos na timeline talvez seja uma solução para não perder o contato. Mas será que não nos acomodamos por “manter contato” virtual ao invés de sentir o calor de um amigo? Será que estamos cada vez mais se distanciando das pessoas pelas facilidades tecnológicas atuais? Talvez todas essas questões possam ser respondidas mais a frente, quando um abraço apertado fazer parte de uma paisagem.

Sbre Eanne

Um fetiche chamado smartphone

Vi este vídeo no DCM postado pelo Kiko Nogueira, e o achei sensacional.

Outro dia no metrô reparei que nas ruas quase ninguém mais interage,  seja brincando com as crianças, seja olhando para as moças e os moços bonitos que estão por aí, seja simplesmente curtindo a cidade…todo mundo vidrado nos seus celulares, de vários e diferentes modelos e preços. Garota de Ipanema não poderia mais ser composta, pois estaríamos checando alguma rede social via smartphone ao invés de saborear  “o seu balançado (que) é mais que um poema”.

Estamos se tornando macacos não sociais…podendo se conectar on-line com alguém na Papua Nova Guiné mas incapaz de enxergar o que está ao lado.

Eu mesmo tenho que me policiar  vez ou outra.

O filme Her (Ela) conta um pouco disso. Bom, talvez se o meu smartphone tivesse a voz da Scarlett Johansson….

Mas vejam o vídeo, é verdade ou não?

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Uma confraria de tolos

Fiquei sabendo deste livro no blog do André Barcinski antes hospedado no UOL e agora no R7. Suas dicas de livros, cinema e música são excelentes.

A história do autor deste livro é trágica: John Kennedy Toole nasceu em Nova Orleans em 1937 e cometeu suicídio com 31 anos. Durante a sua breve vida ninguém deu bola aos seus talentos literários, e o seu reconhecimento se deu muitos anos após a sua morte, com o Pulitzer de 1981, o mais importante prêmio literário norte americano.

O livro se passa em Nova Orleans e a recriação da atmosfera da cidade é genial, assim como a da linguagem; este é um ponto interessante, pois Toole, especialmente através do personagem Burma Jones, consegue passar para o leitor as gírias e a maneira de falar típicas de Nova Orleans, e isso mesmo lendo o livro em português. Ponto positivo para o tradutor.

A galeria dos tipos criados por Toole é sensacional, a partir do protagonista Ignatius J. Reilly um gordão balofo que perambula pela cidade em busca de emprego, e que vive reclamando que os problemas do universo vêm da falta de teologia e geometria, A troca de correspondência com sua namorada Mirna Minkoff são impagáveis. Mas todos os personagens são dotados de graça e humor próprios, numa combinação rara de ironia, erudição e mise en scéne. Não há parágrafos à toa e cada página é muito agradável de se ler.

O livro é muitas vezes classificado com um romance picaresco, ou seja, uma prosa satírica, em que o protagonista provém de uma baixa classe social, e que através de sua inteligência – ou loucura, ou sendo não convencional – consegue de alguma maneira se sobressair na sociedade.

Um romance inesquecível, com um humor e ironia que transbordam a todo tempo.

E atualíssimo na caracterização dos tipos urbanos: não seria a Sra. Levy uma presença constante nas recentes manifestações da Av. Paulista?

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Habitus Academicus

Pierre Bourdieu
Pierre Bourdieu

A primeira vez que ouvi essa expressão foi numa das aulas de Formação de Professores do IFSP e se refere ao campo acadêmico. Esse conceito foi difundido por Pierre Bourdieu, sociólogo francês e a grosso modo está relacionado com o hábito do estudo. De uma certa forma, faz parte de um dos deveres de quem está inserido no mundo das letras. Entretanto, pensei que poderia trazer esse conceito para nossa vida cotidiana. Dedicar algumas horas a leitura e ou estudo não é tarefa fácil no meio de tantas coisas a fazer no dia-a-dia. Mas a questão é: quando temos um tempo livre escolhemos estudar um assunto ou ler um livro? Talvez se fosse um hábito, ou seja, uma prática costumeira, daríamos um jeito e naturalmente disponibilizaríamos alguns minutos de nosso dia, que seja, para nos dedicar ao conhecimento. Na verdade, não criamos este hábito por não sermos orientados para tal. Geralmente quando somos crianças, estudar é uma obrigação, uma hora chata e não um prazer como deveria ser. Se é certo que as crianças imitam os pais e aprendem principalmente através dos exemplos dentro de casa, acredito que para interiorizar este hábito é preciso começar a praticá-lo. Assim como os pais ensinam a criança a escovar os dentes todos os dias até virar um costume, a leitura e o estudo também devem fazer parte de uma rotina até se tornar uma tarefa normal e natural. Antes disso, os pais devem criar o hábito de adquirir conhecimento, mesmo que seja por alguns minutos. Nossas tarefas diárias são escolhas a fazer e optar pela leitura e estudo só trará benefícios para si e para os futuros cidadãos.

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Histórias de Ruanda

gostariamos de informa lo que RUANDAÀs vezes associamos o termo História com eventos que aconteceram há muito tempo atrás, que estudamos em livros, imaginando como deve ter sido através de pinturas – um bom exemplo é o quadro A Coroação de Napoleão, de Jacques-Louis David – ou então por filmes de época.  Algo distante no tempo. O que o jornalista Philip Gourevitch descreve no seu livro “Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias: histórias de Ruanda” (Companhia de Bolso, Tradução de José Geraldo Couto, 352 páginas, 1ª edição americana de 1998) são acontecimentos do ano de 1994. Isso mesmo: enquanto Romário brilhava na copa nos Estados Unidos ajudando a seleção canarinha se tornar tetracampeã, acontecia na África Central um dos episódios mais terríveis e indecentes – e olha que a concorrência é vasta – da nossa breve história da humanidade: o genocídio de Ruanda.

Não só pela barbaridade em si, este recente evento deveria ser muito mais estudado – e especialmente no Brasil atual – como um convite à reflexão, sobre as causas que o antecederam ; enfim, desvendar o ovo da serpente: a origem e a construção do discurso do ódio que levou ao massacre de quinhentas mil a um milhão de pessoas – as estatísticas variam – incluindo crianças, mulheres grávidas e anciãos, assassinadas em sua maioria por golpes de facão.

Gourevitch nos conta que os belgas, que colonizaram Ruanda por mais de cinquenta anos até sua independência em 1962, estabeleceram em 1933-34 um censo, emitindo carteiras de identidade étnicas entre os hutus (que eram grande maioria), os tutsi e a minoria twa. Isto não impedia casamentos  e relações cordiais entre os grupos,  porém “os belgas haviam feito da etnicidade o traço definidor da existência ruandesa” (pág 56). Eis o ovo da serpente.

Mas para que a serpente possa nascer é necessário que o ovo seja devidamente chocado, e uma excelente incubadora – senão a melhor – são os meios de comunicação de massa e aí saltamos até 1990, quando rebeldes vindo de Uganda invadiram o país com o objetivo de derrubar o presidente-ditador Juvenal Habyarimana, um Hutu, no poder desde 1973. E então de 1990 até 06 de Abril de 1994, quando o seu avião foi derrubado sob circunstâncias ainda não esclarecidas, houve uma sistemática e constante campanha de ódio através de rádios e jornais culpando os Tutsis por tudo de ruim que acontecia no país; é notório o documento “os dez mandamentos hutus” publicado no jornal Kangura onde se era especificado que qualquer homem Hutu que tenha relações com mulheres Tutsis era considerado traidor e que todos os postos chaves da sociedade ruandesa ser ocupados por Hutus. Uma rádio, chamada Radio Television Libre des Milles Collines, propagava mensagens de ódio contra os Tutsis quase que diariamente.

Nesse intervalo de quatro anos e com o apoio financeiro e militar do Ocidente, principalmente da França, ovo foi eficazmente chocado até que em 06 de Abril de 1994 ele se quebrou e a serpente finalmente foi libertada.

De 07 de Abril até meados de Julho de 1994 estima-se que foram dizimados entre quinhentos e um milhão de ruandeses, principalmente tutsis e também hutus contrários à ordem política vigente sob a total indiferença das nações unidas, da Europa e também dos Estados Unidos. Como Gourevitch escreve no prefácio, “foi o mais eficiente assassinato em massa desde os bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki”.

Também, quem se importa com um país pequeno e pobre, sem muitas riquezas naturais, e além de tudo negros? “Ora, que se matem, são sociedades tribais sendo esta a sua natureza”.  A uma boa discussão do livro do Gourevitch é sobre os grupos de ajuda humanitários, cujos objetivos não são somente humanitários, que infestaram Ruanda após Julho de 1994, e não raras vezes explorando a miséria dos refugiados e protegendo os executores do genocídio.

Bom é melhor ler o livro e conferir a excelente narrativa do Gourevitch. Como pequenas falhas, a edição poderia ter um índice por assunto e também uma bibliografia para que o leitor interessado possa se aprofundar no assunto. Uma certa simpatia ao líder emergente da Ruanda pós genocídio, Paul Kagame, é também perceptível. Mas a internet está aí e  é possível encontrar outros grandes trabalhos como diferentes visões deste evento histórico. Uma outra grande narrativa (não li, apenas trechos) é a da americana já falecida Alison Des Forges, cuja obra Leave None to Tell the Story pode ser baixada aqui.

Brasil, Abril de 2015

Uma das grandes razões que este recente evento histórico merece ser estudado e compreendido, para que não seja mais repetido, é o entendimento de como a construção do ódio foi cultivada durante quatro anos na mídia ruandesa. A grande mídia brasileira, que sempre esteve ao lado dos donos do poder, vem propalando sistematicamente um discurso de ódio contra tudo o que ela considera nociva ao país. Ódio contra as esquerdas, preconceito contra negros, gays, nordestinos. Recentemente um jornalista (sic) do SBT vociferou em um vídeo que “todo depressivo é um frustrado e não é digno de pena”. Uma outra pseudo-jornalista há tempos atrás ao comentar uma notícia de um jovem negro espancado e amarrado a um poste disse que “a atitude dos vingadores é até compreensível”. Ao ler no livro sobre a Radio des Milles Collines e sua apologia ao genocídio não pude evitar de pensar na Rádio Jovem Pan AM de São Paulo e sua inacreditável fauna de apresentadores e comentaristas. O discurso do ódio está aí, e vamos esperar sentados pelo pior, da mesma maneira que Ruanda?

Por último segue um link para a primeira parte, de nove, de um documentário sobre o genocídio em Ruanda. Em inglês.

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Em terra de cego quem tem um olho é rei

Foto: Geraldo Magela/ Agência Estado/ Carta Capital
Foto: Geraldo Magela/ Agência Estado/ Carta Capital

É fato que o Governo atual se mostra incapaz de desenvolver uma articulação eficiente, de mostrar coerência entre o discurso e a prática e dar credibilidade a este mandato, pelo o menos aos seus eleitores. Ou seja, o Governo não contribui para diminuir e abrandar sua auto propaganda desastrosa que só alimenta aos que sentem ódio e não estão dispostos a ver o outro lado da moeda. Sim, toda moeda tem dois lados, e neste caso é a moeda da troca, do famoso “toma lá da cá”, expressão tão recorrente na política brasileira. O mais triste é que o outro lado tem como protagonistas dois políticos que figuram entre os principais líderes do Estado: Renan Calheiros (presidente do Senado) e Eduardo Cunha (presidente da Câmara). Não é exagero dizer que a presidenta está nas mãos destes dois lobos que só aprovam as medidas do Governo se receberem benefícios, como cargos em Ministérios, estatais e por ai vai… Sempre me pergunto como esses oportunistas chegam a um cargo tão importante no cenário político, mesmo que as vezes tenham como base eleitoral Estados pouco expressivos economicamente como é o caso do excelentíssimo Renan Calheiros. Daí vem minha reflexão mais filosófica, que como Aristóteles afirmava, o homem é um animal político, e certas pessoas possuem habilidades e virtudes que se destacam de outras. O fato é que estes dois lordes da política são extremamente articulados, hábeis na arte da negociação e no mínimo persistentes aos objetivos que almejam. E só consigo ver estas qualidades, mesmo que contrária e enojada ao que tudo o que estes hipócritas representam. Sempre lembro da propaganda partidária do PMDB (sigla do partido dos caros cavalheiros), que por uma distração me peguei assistindo e conferindo as hipocrisias lançadas em pleno horário nobre da televisão. O Sr. Eduardo Cunha dizia, entre outras balelas, que já dava início a uma reforma  política de verdade. Para ser de verdade, esses políticos teriam que ter uma virtude que eles não tem: honestidade. E assim se explica como certas pessoas se destacam das outras e exercem o poder, se detém da influência e se perpetuam numa posição privilegiada defendendo os interesses próprios e daqueles que os seguem.

Fontes: Carta Capital, YouTube.

Sbre Eanne

Birdman – A inesperada virtude da ignorância

Foto da Internet
Foto da Internet

Já tinha ouvido alguns comentários desanimadores  de amigos sobre Birdman (acredito que muitas pessoas não tenham gostado do filme), mas a verdade é que eu adorei… Achei um filme leve, bem sacado, original e divertido. Demorei um pouco para assistir o ganhador do Oscar porque imaginava uma história diferente, talvez cansativa. Mas a surpresa foi agradável tanto das cenas, como dos atores. Michael Keaton está realmente perfeito como Riggan Thompson, Edward Norton como Mike Shiner, Emma Stone como Sam, um elenco que só enriquece o filme dirigido por Alejandro G. Iñárritu (Amores Perros – 2000, 21 gramas – 2003, Babel – 2006, Biutiful – 2010). As virtudes retratadas em Birdman são típicas do sucesso que vai e volta: vaidade, egocentrismo. Destaque para a força da crítica de um jornal famoso que tem o poder de enaltecer ou acabar com um espetáculo, o ambiente desencanado do teatro, a trilha sonora durante todo o filme, as cenas contínuas , sem cortes, a atuação de Michael Keaton. Brilhante.